quarta-feira, maio 30, 2007

Um tempo imperfeito



Pode alguém, de forma impune, roubar-nos as árvores que povoam as nossas memórias? Pode alguém, com a prepotência de uma moto-serra, mutilar as nossas recordações de infância?



Como já tinha escrito num texto anterior, foram inúmeras as brincadeiras sob as duas enormes tílias da Escola do Rodrigo na Covilhã...e o passado refere-se aqui, não apenas a uma infância que já passou, mas também às duas árvores a quem foi negado um futuro com dignidade.

Eu, pelo menos, recuso-me a chamar árvore a dois cepos em que as folhas mal conseguem disfarçar as profundas feridas no tronco e nos ramos, resultantes de anos de podas mal conduzidas.

Se podemos culpar o aquecimento global (que tem as costas largas...) pelo fim das batalhas de neve nos intervalos e se podemos culpar os hipermercados pelo fim do negócio dos miúdos que vendiam a tília às farmácias, mais fácil seria ainda precisar os responsáveis pelo fim da sombra no recreio....



Alguém decidiu plantar uma terceira tília, ao centro, que apesar da sua juventude supera já em altura e graciosidade as duas que sucumbiram à ignorância...que destino lhe está reservado?
Para esta ainda não é tarde demais...

P.S. - Dois exemplos de amor pelas árvores ou de como estas são importantes na vida das pessoas:

5 comentários:

Cristina disse...

Triste isso Pedro. Mas tem gente como você que vê isso e fala, outras se comovem, uma coisa vai acontecer por isso. Tenha fé.
Postais ilustrados com clássicos - http://forum.motorclassico.pt/showthread.php?t=445

Acho que esse link deve lhe interessar, achei ontem, são postais de Portugal, mostram muita coisa, dentre elas árvores, as árvores que hoje são podadas sem nenhum critério.

Ver disse...

Eu tenho uma Tília de estimação e estou sempre com medo que lhe aconteça o mesmo.E isto não é nenhuma maluqueira ou fundamentalismo como alguns gostam de chamar. É mesmo, mesmo medo, medo a sério! Porque quem não gosta de árvores como nós parece que não entende estes sentimentos nossos.
rosa

Ana Patudos disse...

Pedro, obrigado por referenciar a bela-sombra, ela merece pois é maravilhosa. Acompanho-a com muito carinho e fiz dela, minha amiga.
Mas também tenho uma amoreira à qual também fizeram esse horrivel crime de uma "poda" sem dó.
Tenho outro caso que ainda não fotografei, por falta de coragem, pois deixou de ser árvore para ser cêpo, foi completamente decepada.
Imagine um corpo humano sem pernas nem braços; é assim que eu a vejo neste momento, um corpo mutilado.Será porque era um eucalipto? Não fazia mal algum onde estava e agora nem é árvore , nem tronco, nem nada...
As suas tílias também dão dó, isso não se faz. Mas quem está ligado á área de jardins e parques das autarquias, sõ o quê afinal? Carniceiros...
Já não bastam os fogos postos nas nossas florestas e agora esta gente assim...
Desculpa o desabafo , mas é o que sinto
abraço
Ana Paula

ljma disse...

O meu filho é aluno do segundo ano nessa mesma escola, e ontem trazia uma informação interessante: que tinham colocado uma lona para fazer sombra no recreio! Eu ainda não vi. Possivelmente essa lona foi colocada do lado de trás do edifício onde não há árvores, não sei. Mas é sintomático: as árvores provocam alergias, o sol melanomas... O melhor é manterem-se as crianças sempre dentro de casa, num ambiente rigorosamente monitorizado e controlado nos aspectos químicos, radiológicos, sonoros, emotivos. Só assim poderão crescer saudáveis...

Pedro n. t. santos disse...

Cristina,

Espero que no Brasil haja um pouco mais de respeito pelas árvores; também é preciso sublinhar que este péssimo hábito de podar as árvores desta forma não é um exclusivo português; aqui na vizinha Espanha, ao que tenho visto, a situação é similar em muitos aspectos.

Apesar disso, penso que lentamente as pessoas começam a ver as árvores na cidade de forma diferente; pelo menos já há mais quem manifeste o seu desagrado por este estado de situação.

Obrigado pela sugestão de visita.



Rosa e Ana Paula,

A blogosfera dá para perceber que apesar de sermos uma (imensa) minoria temos uma força que lentamente contagia mais e mais pessoas (é a forrça da razão); claro que o ritmo de conversão à causa das árvores é lento, talvez demasiado lento, mas eu acredito que tal como pessoas como o Professor Jorge Paiva me ensinaram a amar e respeitar as árvores, a acção de blogues como os nossos também ajudarão a mudar algumas visões...

Acontecimentos como os do Campo Pequeno podem fazer-nos desanimar mas não desistir!



José,

Essa informação é muito interessante; é provável que tenham posto a lona nas traseiras; No Domingo, quando tirei as fotografias, não reparei em nada.
Era preciso era que ( e isto não deixa de ser irónico) se fizesse um pouco de pedagogia em relação à escola acerca da importância das árvores... e da sombra! Aquelas duas tílias decepadas são péssimas mensagens para as crianças e não têm nenhuma acção benéfica, talvez uns míseros centímetros quadrados de sombra em redor dos troncos. Era preciso que os meus colegas dessa escola não permitissem que fizessem o mesmo à outra tília e que plantassem novas no lugar dos 2 cepos.