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sexta-feira, maio 21, 2010

O que é uma oliveira?



¿Qué es un olivo?
Un olivo
es un viejo, viejo, viejo
y es un niño
con una rama en la frente
y colgado en la cintura
un saquito todo lleno
de aceitunas.

Rafael Alberti

P.S. - Provavelmente, a oliveira mais grossa a Norte do Douro. No blogue da Árvores de Portugal.

sábado, março 21, 2009

No dia da poesia e das árvores (mesmo das que vivem depois da morte)

Fotografia de Manuela Ramos - O velho ulmeiro de Miguel Torga (S. Martinho de Anta)



Al olmo viejo, hendido por el rayo
y en su mitad podrido,
con las lluvias de abril y el sol de mayo,
algunas hojas verde le han salido.
¡El olmo centenario en la colina
que lame el Duero! Un musgo amarillento
le mancha la corteza blanquecina
al tronco carcomido y polvoriento.
No será, cual los alamos cantores
que guardan el camino y la ribera,
habitado de pardos ruiseñores.
Ejército de hormigas en hilera
va trepando por él, y en sus entrañas
hunden sus telas grises las arañas.
Antes que te derribe, olmo del Duero,
con su hacha el leñador, y el carpintero
te convierta en melena de campana,
lanza de carro o yugo de carreta;
antes que, rojo en el hogar, mañana
ardas, de alguna misera caseta
al borde de un camino;
antes que te descuaje un torbellino
y tronche el soplo de las sierras blancas;
antes que el río hacia la mar te empuje,
por valles y barrancas,
olmo, quiero anotar en mi cartera
la gracia de tu rama verdecida.
Mi corazón espera
también hacia la luz y hacia la vida,
otro milagro de la primavera.

Antonio Machado

segunda-feira, março 16, 2009

De (e para) uma amiga


Dragoeiros (Dracaena draco L.) - Madeira [Fotografias de Natividade Lemos]


Espelho


E eis que do tronco
rompem-se os brotos:
um verde mais novo da relva
que o coração acalma:
o tronco parecia já morto,
vergado no barranco.

E tudo me sabe a milagre;
e eu sou aquela água de nuvens
que hoje reflecte nas poças
mais azul seu pedaço de céu,
aquele verde que se racha da casca
e que tampouco ontem à noite existia.


Salvatore Quasimodo



sexta-feira, novembro 07, 2008

Poema das folhas secas de plátano

Plátano (Platanus orientalis L. var. acerifolia Aiton) - Portalegre


As folhas dos plátanos
desprendem-se e lançam-se na aventura do espaço,
e os olhos de uma pobre criatura
comovidos as seguem.
São belas as folhas dos plátanos
quando caem, nas tardes de Novembro
contra o fundo de um céu desgrenhado e sangrento.
Ondulam como os braços da preguiça
no indolente bocejo.
Sobem e descem, baloiçam-se e repousam,
traçam erres e esses, ciclóides e volutas,
no espaço escrevem com o pecíolo breve,
numa caligrafia requintada, o nome que se pensa,
e seguem e regressam,
dedilhando em compassos sonolentos
a música outonal do entardecer.
São belas as folhas dos plátanos espalhadas no chão.
Eram lisas e verdes no apogeu
da sua juventude em clorofila,
mas agora, no outono de si mesmas,
o velho citoplasma, queimado e exausto pela luz do Sol,
deixou-se trespassar por afiados ácidos.
A verde clorofila, perdido o seu magnésio,
vestiu-se de burel,
de um tom que não é cor,
nem se sabe dizer que nome tenha,
a não ser o seu próprio,
folha seca de plátano.
A secura do Sol causticou-a de rugas,
um castanho mais denso acentuou-lhe os nervos,
e esta real e pobre criatura
vendo o solo coberto de folhas outonais
medita no malogro das coisas que a rodeiam:
dá-lhes o tom a ausência de magnésio;
os olhos, a beleza.

António Gedeão
(poema retirado do blogue Botânica nas Ilhas)



P.S. - Na imagem que acompanha o poema, o espectacular plátano
(Platanus orientalis L. var. acerifolia Aiton) de Portalegre, classificado como árvore de interesse público desde 1939.


quinta-feira, julho 10, 2008

Os pássaros nascem na ponta das árvores



As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração.


Ruy Belo


P.S. - Obrigado ao Francisco.

domingo, junho 15, 2008

A solidão da árvore sozinha



Breve Sonata em Sol [UM] (Menor, Claro)

A solidão da árvore sozinha
no campo do verão alentejano
é só mais solitária do que a minha
e teima ali na terra todo o ano
quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia
e o calor é tão triste como o é somente a alegria
Eu passo e passo muito mais que o próprio dia.

Ruy Belo


P.S- Um poema do tamanho da solidão. Um poema que agradeço à Rosa.

quinta-feira, maio 15, 2008

Veredas interiores...

Jardim Botânico de Lisboa


(tarde para o jardim em mim 1)


O observatório astronómico anda tonto

das estrelas se infiltrarem nos seus tectos,

e os pássaros quedos em céus incorrectos

apodrecem e voam certeiros ao encontro

do desamparo. Os gatos escrevem nomes

de namoros na dor rangida dos bambus,

como se furtiva se prenunciasse a luz

no soalho do crepúsculo. E as enormes

árvores do México e da Nova Zelândia

adoptam o aguaceiro para seu pranto

e têm saudades de avestruzes volantes.

Quero tanto sentar-me à janela, na ânsia

das buganvílias me tecerem um manto

de lábios e drogas e melros flamejantes.


Rui Ramalhinho (poema e fotografia)



P.S. - Adenda 1 - Por sugestão do Francisco Paiva, recomendo a leitura do texto "Quem defende o Jardim Botânico?" de Galopim de Carvalho.

Adenda 2 - Outras veredas interiores a descobrir: As bétulas e o Zêzere n' O Cântaro Zangado.

sábado, abril 05, 2008

Assimetria

Tilia sp. - Rua D. Sancho I, Covilhã

The Trees

The trees are coming into leaf
Like something almost being said;
The recent buds relax and spread,
Their greenness is a kind of grief.

Is it that they are born again
And we grow old? No, they die too,
Their yearly trick of looking new
Is written down in rings of grain.

Yet still the unresting castles thresh
In fullgrown thickness every May.
Last year is dead, they seem to say,
Begin afresh, afresh, afresh.

Philip Larkin

quarta-feira, março 26, 2008

Aos que resistem...

Plátanos (Platanus orientalis L. var. acerifolia Aiton) - Covilhã (Março, 2008). Como todos os plátanos deveriam ser...


Este é um texto dedicado às árvores que resistem e aos que insistem em gostar de árvores num país que tanta as despreza.

Há tempos tive oportunidade de recomendar a leitura do livro "Beatriz e o plátano" de Ilse Losa. O que volto a fazer, em particular a todos aqueles que ocupam lugares de decisão nas autarquias ou demais órgãos da administração central ou local com jurisdição sobre as árvores.

Nesse texto que escrevi sobre o livro de Ilse Losa, mencionava o facto de estar, em conjunto com a minha colega de Área de Projecto do 5ºD e com todos os alunos dessa turma, a trabalhar na exploração dessa obra.
Estamos a preparar a apresentação desse livro na forma de uma peça de teatro mas, entretanto, propusemos aos alunos da turma que escrevessem às autoridades um conjunto de cartas apelando contra o corte de uma determinada árvore. O resultado da imaginação dos nossos alunos pode ser lido aqui.

De todas essas cartas, gostaria de destacar a frase do Marlon: "As árvores transformam o barulho em canções de pássaros". É isso mesmo que as árvores fazem, transformam o feio em bonito.



sexta-feira, março 21, 2008

Um fim e um novo começo



Podia ter escolhido qualquer outra árvore mas escolhi esta...Porque representa, em simultâneo, uma esperança no futuro e o desaparecimento de outra que, por razões desconhecidas, foi sacrificada à incompreensível vontade humana.

Sobram as hipocrisias nesta dia dito da Árvore (assim mesmo, com A maiúsculo! Como deveria ser todos os dias...). Haja esperança no futuro, nas vidas que agora começam e na capacidade do ser humano aprender.


Ainda acredito na árvore.



As árvores


Eu espero, sim, que essas árvores cresçam. Adormeço com elas todas as noites, embalado pela sua sombra. Lembro-as de memória, sobre a relva verde. Lembro as suas folhas, caindo de noite. Mesmo as que ainda não vi, eu espero que cresçam, que me esperem, que me abriguem nesse dia em que mais precisarei delas, ouvindo o ruído do mar não muito longe. Tenho, a cada minuto, saudades dessas árvores.

Francisco José Viegas


sexta-feira, março 07, 2008

Adeus. (A um sobreiro)



(...) entrego-me ao húmus para crescer da erva que amo,
Se me queres ter de novo, procura-me debaixo da sola das tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
todavia dar-te-ei saúde,
E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor.

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Algures estarei à tua espera.


Walt Whitman (traduzido por José Agostinho Baptista)

sábado, fevereiro 09, 2008

Árvore aberta

Sobreiro (Quercus suber L.) - Herdade de Pai Anes (Póvoa e Meadas)


Dobrei teus pulsos a dura aranha
do teu corpo
a tua árvore
faca que rasgou a barreira do ventre
a tua face abrindo-se como um barco
amei-te tempestade de ossos e de nervos
contra ti
contra ti


exílio
pátria sobre o chão
e fuga

furiosa e suave lâmina animada
bebida a jactos
aranha alta e linda
enclavinhada
destilando o suor a baba o vinho a seiva
o estrépito da primavera
de uma árvore que se abre
no silêncio.

António Ramos Rosa


Sobreiro (Quercus suber L.) - Herdade de Pai Anes (Póvoa e Meadas)


P.S. -
Deixo a ligação para duas imagens recentes e prévias à derrocada da pernada (aqui e aqui).

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Raízes e folhas sós

ST na América, Dezembro de 2007

Raízes e folhas sós são estas,
Perfumes dos bosques desabitados e das margens dos lagos, perfumes para os homens e as mulheres,
Azedas e cravos de amor, dedos que se retorcem e apertam mais do que as vinhas,
Fluxos da garganta dos pássaros ocultos na folhagem das árvores quando o sol nasce,
Brisas da terra e do amor que partem das praias vivas para vós, sobre o mar vivo para vós, ó marinheiros!
Morangos com gelo e frescos ramos do terceiro mês para os jovens que vagueiam pelos campos quando o Inverno já se retira,
Corolas de amor perante ti e dentro de ti sejas tu quem fores,
Corolas que se hão-de abrir à maneira antiga,
Se lhes trouxeres o calor do sol, abrir-se-ão, adquirindo forma, cor, perfume para ti,
Se te transformares em alimento e humidade elas transformar-se-ão em flores, altos ramos e árvores.

Walt Whitman
(traduzido por José Agostinho Baptista)

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

A espessura é branca

Amendoeiras [Prunus dulcis (Mill.) D. A. Webb]

A espessura da árvore
é branca

A casa repercute
os favos de silêncio

Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem

O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo

Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura

Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio

A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor

Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão

O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos

Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.

Tu poderás captar o esplendor
chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.

Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede
e o olhar abrir-se-á no escuro fresco.

Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.

Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.

Procura e não procures. Não existe um centro
mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.

António Ramos Rosa

domingo, janeiro 06, 2008

O dendroclasta ternurento

Uma das árvores da minha infância - uma velha figueira vizinha da Escola do 1º Ciclo do Rodrigo (Covilhã)



As árvores da nossa infância enchem a atmosfera

de sonhos, as chaminés dos nossos olhos encerrados

têm o dom lacrimal de alumiarem o séquito de cera,

que se arrasta barrigudo por muralhas e mercados.



Eu tinha uma figueira que estava presa contra

um tórax de caliça e um pombal de múmias afinadas.

Trazia-lhe muitas vezes a minha urina monstra,

a minha pele compungida e as minhas mãos aladas.



E quando frutificava, os filhos cheiravam a berros

e a outras aflições perfumadas, e o leite pingava

como nas noites desenfreadas de nascer-se a ferros.



A figueira dos meus pesadelos ceifou-me os pulmões

e, zelosa, tem-nos pendentes como troféus de lava,

são às centenas, filtrando o ar de chorudos nevões.


(Do amigo) Rui Ramalhinho

segunda-feira, novembro 26, 2007

Lord, the air smells good...

Covilhã, Serra da Estrela

Lord, the air smells good today,
straight from the mysteries
within the inner courts of God.

Rumi (poeta sufi do século XIII)


P.S. - Ler aqui o poema na totalidade e descobrir aqui a ligação para vários poemas sobre árvores.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Las encinas




(...)¿Qué tienes tú, negra encina
campesina,
con tus ramas sin color
en el campo sin verdor;
con tu tronco ceniciento
sin esbeltez ni altiveza,
con tu vigor sin tormento,
y tu humildad que es firmeza? (...)

Antonio Machado

P.S- Obrigado à Júlia que me deu a conhecer este extraordinário poema de Antonio Machado - podem lê-lo na íntegra nesta página.

quinta-feira, outubro 11, 2007

A amoreira de Idanha-a-Velha




Tu podes confiante
receber-me com neve:
sempre ao percorrer o verão
ombro a ombro com a amoreira
gritava sua mais jovem folha.”

Paul Celan



P.S. - Fotografias gentilmente cedidas pela minha colega Dilar; retratam uma velha amoreira (penso que se trata da Morus nigra L.), situada no centro da aldeia de Idanha-a-Velha.

domingo, julho 08, 2007

Árvores

Ponte de Lima, 2006-04-25

Trees

I think that I shall never see
A poem lovely as a tree.

A tree whose hungry mouth is prest
Against the earth's sweet flowing breast;

A tree that looks at God all day,
And lifts her leafy arms to pray;

A tree that may in summer wear
A nest of robins in her hair;

Upon whose bosom snow has lain;
Who intimately lives with rain.

Poems are made by fools like me,
But only God can make a tree.

Joyce Kilmer (1886-1918)

P.S. - Descobri este extraordinário poema através de um blogue feito com muito amor às árvores....Trees, if you please.

segunda-feira, junho 04, 2007

O sobreiro

Um dos poucos sobreiros de dimensões generosas que sobreviveu aos recorrentes incêndios na serra de Silves.


O Sobreiro

Num ermo, sobre um morro, o vale em frente,
Eis-me a pregar, à Natureza inteira,
O Amor: celeste, pura e verdadeira
Doutrina, lei de quanto vive e sente.

Profeta, eu sou: ungiu-me o sol ardente.
Filho da terra virgem. Vivo à beira
Da fonte, e tenho sede! E morde a poeira
Minha folhagem lúcida e morrente!

Como preguei o Sacrifício e o Amor,
Ferem-me os homens: dão -me o escárnio e a dor:
Deixam-me, nu e em sangue, ao vento e à luz.

E, sobre o negro cerro solitário,
Sou como o Cristo ao cimo do Calvário,
Abrindo os braços, pálidos e em cruz!

António Correia de Oliveira

in "A Alma das Árvores"