sexta-feira, setembro 28, 2007

Diz que é uma espécie de campanha de reflorestação...

O assunto, que descobri através deste texto do Cântaro Zangado, é bem revelador do país em que vivemos; ou de como de boas intenções está o inferno cheio...

De forma resumida, este é o "filme" da história: a Sociedade de Águas da Serra da Estrela (SASEL), que julgo pertencer ao grupo Sumol, iniciou em 2002 o programa "Plante uma Árvore". Este programa visava inicialmente obter fundos para a reflorestação do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), tendo mais tarde sido alargado a outras serras do nosso país. Aparentemente, a julgar pelo site da iniciativa, já terão sido plantadas mais de 600 000 árvores.

Mas eis quando os Amigos da Serra da Estrela se atrevem a fazer a seguinte questão: onde estão plantadas essas árvores? (pelo menos as que supostamente terão sido plantadas na área do PNSE).

É aqui que, como poderão compreender através da leitura deste artigo do Jornal de Notícias, o assunto se torna numa comédia de mau gosto...O grupo Sumol desconhece onde foram plantadas as árvores, bem como o agora chamado Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), entidade que foi inicialmente a responsável por verificar a execução do programa.
É que passados dois anos do início desta campanha, ou seja, em 2004 e supostamente para agilizar o processo, o então chamado Instituto da Conservação da Natureza (ICN) terá estabelecido parcerias com diversas entidades públicas e associações florestais. Este "trespasse" de responsabilidades do ICN (ICNB) para outras entidades deu no que deu, ou seja, ninguém sabe que árvores foram plantadas e em que locais.

A SASEL defende-se dizendo que pagou a viveiros um conjunto de facturas correspondentes a mais de 600 000 árvores, mas também nunca se terá preocupado em verificar a execução do programa. Embora, há 3 anos, tenha decorrido um concurso de âmbito escolar patrocinado pela SASEL, através do qual esta empresa pagava a deslocação de alunos à Serra da Estrela para verificarem in loco os locais onde as árvores estavam a ser plantadas. Eu próprio sei de turmas do Algarve que venceram esse concurso e foram à Serra da Estrela; isto é, pelo menos até essa altura aparentava existir um certo controlo.

Concluindo: pelos dados que são públicos a situação terá estado controlada enquanto dependia apenas da intervenção da SASEL e do então ICN, mas desde que foram envolvidas outras entidades ter-se-á perdido a capacidade de verificar a execução do programa. Culpa de quem? Obviamente de quem terá alterado as regras do jogo: a própria SASEL e o ICN!

Os "parvos" no meio de toda esta história terão sido todos aqueles que, como eu, acreditaram na bondade desta iniciativa e no profissionalismo com que a mesma seria executada. Até ao esclarecimento da história, como é óbvio, no que depender de mim, deixarei de consumir água da referida marca.

P.S. - Para conferir também com atenção a seguinte questão levantada pelo Blog Cortes do Meio:

"Chamamos a vossa atenção para uma notícia publicada em 2003, no jornal "Voz do Campo" e que aqui transcrevemos:
Trinta mil árvores para a Serra da Estrela
O Conselho Directivo do Baldio da Freguesia de Cortes do Meio (concelho da Covilhã), em colaboração com o Parque Natural da Serra da Estrela e com o apoio dos técnicos dessa instituição, começou a reflorestação dos espaços dizimados pelo incêndio de 2001, na vertente Sul da Serra da Estrela.Segundo informação do Conselho Directivo, no espaço intervencionados serão plantadas cerca de 30 mil árvores, na sua maioria folhosas, assentando o trabalho nos modelos de sustentabilidade do meio natural, criando espaços do “tipo mosaico”, por forma a potenciar a descontinuidade dos cobertos florestais.In Voz do Campo


Será que esta parceria foi realizada no âmbito da campanha mencionada no Jornal de Notícias? Alguém fiscalizou no terreno como e onde foram plantadas as 30 mil árvores? Não sabemos. Mas, neste país, pouco ou nada se sabe, não é verdade?"

2 comentários:

Rui Pedro Lérias disse...

Admiro a tua integridade intelectual. Confesso que este tipo de campanhas me deixa desconfortável. Tanto quanto sabemos as árvores podem ser eucaliptos e a verificação no terreno duvidosa. E também me senti desconfortável com o teu apoio anterior a esta campanha, o que atribuí a boa vontade e acreditares que haja quem queira fazer a diferença.

A tua coragem em te questionares a ti próprio e interrogares publicamente sobre o que passa só te fica bem, é saudável e recomenda-se.

E escrevo isto tudo como um elogio, embora se calhar não o pareça...

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Obrigado, Rui.

Essa parte de acreditar nas "boas intenções" dos outros deverá ser "genética"; se eu adoro a Serra e as árvores como poderia acreditar que os outros não seriam capazes de esse mesmo amor?!

Por outro lado, se ficar provado o fracasso do projecto, a imagem negativa que ficará associada a essa empresa fará apagar todo o crédito positivo que tinham obtido anteriormente com esta iniciativa.

Da parte do ICN (ICNB) já pouco me surpreende...