domingo, setembro 09, 2007

Como distinguir os carvalhos entre si?

Folha de carvalho-negral (Quercus pyrenaica Willd.)

A primeira dúvida que poderá surgir a quem pretende dar o seu contributo à campanha Um Milhão de Carvalhos para a Serra da Estrela, poderá ser como distinguir o carvalho-negral (Quercus pyrenaica Willd.) dos restantes carvalhos que podemos encontrar nas paisagens serranas da Estrela.

São múltiplas as características que permitem distinguir as árvores entre si. Neste caso, as características das folhas são suficientes para que, mesmo uma pessoa sem grandes conhecimentos na área, consiga facilmente distinguir as espécies entre si.

O carvalho-negral (Quercus pyrenaica Willd.) possui uma folha que se destaca por ser densamente aveludada na página inferior, o que resulta da presença de numerosos filamentos moles que lhe conferem uma textura lanosa (perceptível com o passar dos dedos). Esta característica torna quase impossível confundi-lo com os outros carvalhos presentes na paisagem portuguesa.

O carvalho-negral é abundante nos concelhos da Guarda, Pinhel, Sabugal e Trancoso. São comuns bons exemplares próximos de algumas das estradas do distrito, como a N221 (Guarda-Pinhel), N233 (Guarda-Sabugal) ou a N18-1 (Vale de Estrela-Valhelhas). Uma das melhores zonas é em redor da A23, na zona da Arrifana e entre a Guarda e as Aldeias de João Bragal.
Ainda no distrito da Guarda, mas no concelho de Manteigas, abunda na encosta da Pousada de S. Lourenço.

No concelho de Belmonte abunda na Serra da Esperança e nas imediações de Caria, na zona de fronteira entre este concelho e o da Covilhã (muitos destes carvalhais pertencem à Quinta de França e são visíveis da A23 entre os nós de Caria e Covilhã Norte).
No concelho da Covilhã a espécie é ainda frequente nas freguesias de Terlamonte, entre o Canhoso e a Vila do Carvalho.

Nas freguesias a norte da Serra da Gardunha, no concelho do Fundão, a espécie também é frequente em pequenos bosquetes ou a dividir campos agrícolas.

Folha de carvalho-alvarinho (Quercus robur L.)
As folhas de carvalho-alvarinho ou roble (Quercus robur L.), para além de não serem tão profundamente divididas como as do carvalho-negral, possuem um pecíolo* muito curto (geralmente não ultrapassa os 7 mm) e não possuem qualquer filamento, ou seja, em linguagem de botânicos dizem-se glabras.

* pecíolo - "pé" da folha, isto é, a estrutura que liga o limbo da folha à bainha ou directamente ao eixo.

O carvalho-alvarinho é autóctone da Serra da Estrela, em particular da vertente oeste (onde a secura estival é mitigada pelos frequentes nevoeiros matinais) mas pode surgir na vertente leste, como nas encostas sobranceiras à cidade da Covilhã. Neste caso, os elevados valores de precipitação anual atenuam os efeitos de um Verão menos húmido, garantindo a sobrevivência da espécie.

No entanto, esta espécie não ultrapassa de forma espontânea os 1000 m de altitude (mesmo nos maciços montanhosos do noroeste do país, como é o caso da Serra da Peneda). Como os esforços de reflorestação da campanha "Um Milhão de Carvalhos para a Serra da Estrela" se centram em zonas situadas entre os 1300 e os 1500 m, as bolotas a recolher deverão ser de carvalho-negral (que na Serra da Estrela chega a aparecer a 1700 m de altitude).


Folha de carvalho-americano (Quercus rubra L.)

Na Serra da Estrela podemos ainda encontrar um carvalho introduzido a partir dos Estados Unidos, o carvalho-americano (Quercus rubra L.). As folhas apresentam lobos triangulares e são desprovidas de filamentos (excepto nas axilas das nervuras da página inferior).

Na encosta da Covilhã, no cruzamento para a Rosa Negra (no local onde começa o Parque Natural), existem estes três tipos de carvalhos sendo, por este motivo, um bom local para observar as espécies e as diferenças existentes entre si. No entanto, como referi no início deste texto, a textura aveludada da página inferior da folha do carvalho-negral torna-o inconfundível ao tacto.

No entanto, locais como este podem apresentar outro problema, ou seja, como fazer a distinção das bolotas entre si? Sobretudo como ter a certeza que não estaremos a recolher sementes de carvalho-americano e a contribuir, ainda que de forma involuntária, para a propagação de uma espécie introduzida e que pode, no futuro, vir a revelar-se como invasora.

Na minha opinião, o melhor seria o leitor recolher uma bolota directamente de cada uma das árvores e estudar as respectivas diferenças em casa. No entanto, daqui a algumas semanas (quando começar o período de recolha das bolotas), pretendo escrever um outro texto, ilustrado com imagens das bolotas maduras de cada uma destas espécies, com vista a auxiliar na respectiva identificação.
De qualquer modo, e em relação ao carvalho-americano, convém sublinhar que este tem uma distribuição muito restrita dentro da área do Parque Natural, pelo que a probabilidade de recolher bolotas desta espécie por engano é diminuta desde que se tomem as precauções que referi.

P.S. - Na área do Parque Natural da Serra da Estrela e zonas limítrofes crescem duas outras espécies de carvalhos (Quercus) autóctones, mas de folha persistente, a azinheira (Quercus rotundifolia Lam.) e o sobreiro (Quercus suber L.).
Neste caso, tal como no caso do carvalho-alvarinho, apesar da azinheira e do sobreiro serem carvalhos autóctones da Serra da Estrela, não são árvores características de habitats acima dos 1300 m de altitude (domínio "absoluto" do negral).

13 comentários:

ljma disse...

Pedro, tinha um post como este (mas com menos conhecimentos, que não os tenho) na calha para o Cântaro Zangado! Fixe, assim já não é preciso.

Da minha (pouca) experiência do ano passado, fiquei com a impressão que há uma gradação quase contínua entre o carvalho-negral e o alvarinho. Pelo menos a avaliar por algumas características das folhas. Por exemplo, há carvalhos com folhas sem pelos (parecem, portanto, ser alvarinho) mas que têm as folhas muito divididas, como as dos negrais. Isto é verdade, ou sou eu que não estou a fazer correctamente a leitura dos sinais das folhas?

Um abraço,
José Amoreira

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Desculpa lá ter-te "estragado" o post!!...Nunca me aconteceu mas deve ser "tramado"!! Eheh

Agora mais a sério...acho que o deverias publicar na mesma, a informação nunca é demais e não me custa a crer que tenhas fotos mais elucidativas do que as minhas, por exemplo (e não estou a ter falsas modéstias!).

Em relação à questão que colocas é bastante pernitente...na realidade podes já ter visto alguns híbridos entre as duas espécies; os quais podem ocorrer dada a semelhança entre as duas espécies.

Um abraço

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

P.s.- Obviamente que queria dizer "pertinente" e não "pernitente", como escrevi,eheh!

Paulo disse...

Fico muito grato por estes esclarecimentos. Tenho muitas dificuldades em distinguir os vários tipos de carvalhos. Agora ficou tudo muito mais claro.

Um abraço.

ljma disse...

Olá Pedro
Sobre o teu primeiro comentário, no problem! Não nos pagam para escrever no blog, se ficamos sem assunto podemos fazer outras coisas (bem melhores) no tempo livre, como ir passear para a serra...

Sobre o teu segundo comentário, trata-se de um excelente exemplo de uma pernitente correcção, ehehe!

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Paulo,

Ainda bem que pude ser útil; claro que as coisas se podem complicar com o aparecimento de híbridos.

A azinheira e o sobreiro também se distinguem bem; senão pela folha, pelo menos pelo aparecimento da cortiça logo nos primeiros anos (no caso dos sobreiros).

Alguma confusão pode ocorrer também entre o cerquinho (Quercus faginea) e o carvalho-de-monchique (Quercus canariensis), embora as suas áreas de distribuição apenas se sobreponham ligeiramente na zona de Monchique.

De qualquer forma hei-de voltar mais vezes a este assunto.

Um abraço

Paulo disse...

Obrigado, Pedro.

Esqueci-me de mencionar que o sobreiro e a azinheira são a excepção. Distingo-os por serem carvalhos à parte.

Um abraço.

Crix disse...

Que pena não ter visto este post antes. Estive este fim de semana no cruzamento para a Rosa negra e só me apercebi de dois Quercus. O pyrenaica escapou-me :(
Da próxima já sei...
Abraço

reservafamilialima.com.br disse...

Olá, tenho 4 sementes de carvalho-alvarinho e não sei fazer a quebra da dormência ou germinação desta semente. É diferente de outras que já fiz. Poderiam dar-me informações de como faço isso, por favor?

Dirce disse...

Olá, tenho 4 sementes de carvalho-alvarinho e não sei fazer a quebra da dormência ou a germinação desta semente; é diferente das que conheço. Poderiam me dar informações de como faço isso, por favor?

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Dirce,

As bolotas de carvalho mantêm a capacidade de germinar durante pouco tempo; no caso específico do alvarinho não sei em concreto quanto tempo será, mas não deve superar os 2 meses.

Logo, se essas sementes tiverem mais do que esse tempo já não irão germinar.

De resto, é apenas colocá-las em terra humedecida; estas sementes não são de difícil germinação (eu costumo ter uma taxa de sucesso de cerca de 50%). O único pormenor a ter em conta é o mesmo a "idade" das sementes; se, por exemplo, forem do ano passado já não irão germinar.

Espero ter sido útil.

Anónimo disse...

Muito boa a informação neste post. Andei a "semear" umas boas centenas de bolotas de carvalho na serra de Sintra e parque do Monsanto. Agora sei que eram roble e não negral ;)

JP disse...

Artigo muito bom. Cheguei agora dum passeio à Serra do Gerês e vinha a interrogar-me como distinguir o carvalho-alvarinho do carvalho-negral... :)