quarta-feira, janeiro 24, 2007

Pobres áceres



[Juntamente com um conjunto de considerações sobre a poda de árvores ornamentais, deixo aqui várias fotografias de exemplares de Acer negundo L. (espécie originária da América do Norte) existentes na Covilhã e que mostram o estado absolutamente decrépito dos seus troncos; as fotografias são todas de árvores diferentes e poderia ter fotografado muitas mais como estas...]




Passo a transcrever a mensagem que o leitor deste blogue Ljma aqui deixou acerca do texto "Os dias tristes":

"O meu vizinho da frente, com quem me dou bem, tinha três grandes choupos (acho eu que eram choupos) à frente da casa dele. No Outono, enchiam-me os escoadouros das águas pluviais de folhas. Na Primavera, era a casa que ficava cheia de uma espécie de algodão. Eu gostava daquilo? Não. Aquilo obrigava-me a limpar mais frequentemente. Mas as vantagens de ter o sol do meio dia cortado pelas grandes copas ultrapassavam, de longe, as desvantagens das folhas e do "algodão". Mas o vizinho teve que cortar os choupos, porque, segundo disse (e eu acredito), as raizes das árvores lhe estavam a estragar a canalização. Foi pena. A rua ficou mais triste. "


Em primeiro lugar, queria saudar o espírito cívico do José e toda a ajuda que me tem dado na cruzada anti-podas e, em segundo lugar, reafirmar o que então lhe respondi, ou seja, que muitas destas situações resultam da falta de planeamento das câmaras:


- com frequência escolhem-se árvores que atingem facilmente um grande porte (e com grande desenvolvimento radicular), esquecendo a falta de espaço das sempre estreitas e acanhadas ruas das cidades portuguesas; bastaria, tão só, adequar a espécie a plantar ao espaço disponível para esta se desenvolver, deixando os choupos, as tílias ou os plátanos para zonas mais amplas, como os parques ou os jardins;



- em segundo lugar, muitas vezes também se planta um número exagerado de árvores e deixando pouco espaço entre as mesmas; daqui resulta que, passados alguns anos, o crescimento de umas começa a interferir com a copa das outras e depois...pois, já adivinharam, poda-se de forma radical! Bastaria plantar um menor número de exemplares e deixar que estes desenvolvessem as respectivas copas de forma natural...sem mutilações!

São questões básicas e que derivam da lusitana tradição de falta de planeamento.





Em relação ainda a estes choupos, duvido que esta poda tenha resolvido o problema (que era sobretudo ao nível das raízes), até porque estas podas debilitam as árvores dando origem a rebentos de grande fragilidade mecânica e permitem o desenvolvimento de ramos de forte crescimento vertical que crescem de uma forma desorganizada e muito mais densa.




Por último, acerca das alergias supostamente provocadas pelas árvores, quero relembrar o que aqui escrevi no texto "Salvem as árvores da minha cidade - Parte II":



"Há, por último, os que solicitam as podas porque as flores, o pólen, os frutos ou as sementes, lhes causam reacções alérgicas...vai daí, toca de podar! Excelente solução...excepto pelo facto de que a poda vai no ano seguinte aumentar a floração e, logo, a produção de frutos e sementes! Aliás, é por isso que as ditas "árvores de fruto" são podadas. Acrescento que, como é óbvio, tenho o maior respeito pelas pessoas alérgicas ao pólen das plantas, a minha mãe é aliás bastante alérgica ao pólen de uma planta que cresce vulgarmente nos muros das cidades e dos campos, a alfavaca-de-cobra (Parietaria sp.), e que lhe causa grandes transtornos de saúde.Aliás, algumas das plantas que causam maior número de alergias são as gramíneas, como os cereais, e não penso que se esteja a considerar a hipótese de deixar de plantar o trigo ou o centeio, com o qual fazemos o pão que comemos todos os dias! Além de que as pessoas tendem a esquecer que na base de muitas alergias estão precisamente muitas substâncias libertadas por várias indústrias e pelos automóveis! Mas é mais fácil descarregar nas árvores...as tais que nos fazem o favor de renovar o ar que respiramos."

3 comentários:

Anónimo disse...

Excelente posta, que relaciona vários factores e nos faz pensar e exigir mais dos autarcas eleitos e de outros gestores com responsabilidades no ordenamento. Octávio Lima (ondas3.blogs.sapo.pt)

Pedro n. t. santos disse...

Obrigado pelo elogio, faz-me continuar a ter vontade de denunciar estes atentados ao património que é de todos.

Cristina disse...

Oi Pedro isso não é uma exclusividade portuguesa. Por aqui as coisas também acontecem, em menor proporção acho, porque temos mais verde. Mas já vi muitas árvores com o tronco oco, ainda com folhas e de grande porte. Ainda tiro foto para você ver, o povo usa para colocar lixo dentro, outro dia do ônibus, vi um terreno enorme, com sete, 7 árvores abatidas, como você mesmo gosta de falar. Atacadas à serra elétrica, picadas até o talo, no chão, em pequenas rodelas, os montes lá em número de sete atestavam. Lugar muito pobre, bairro muito pobre, sem asfalto, sem assistência, gente pobre, pobre, estamos no inverno, aquelas pessoas mal sabem do que significa aquecimento global. Fome, frio, necessidades básicas falam mais alto, respeito elas por isso. Quê fazer nesse caso? Não são regra, mas uma excessão chocante, não quero que pense que pobres aqui são devastadores da natureza, mas acontece, e por "essas" razões. Quando cheguei em casa, olhei para minhas mudas, minhas árvores dentro do terreno, com olhos de mãe chocadeira, temi por elas, temi por meus filhos, temi pelos velhos, e pelos jovens. Tanto acúmulo de história e cultura não nos devia dar valores, parâmetros, sinalizar até onde podemos ir? Como diz o povo aqui: só por Deus!
Outro texto longo! Ando muito falastrona, desculpe.