sexta-feira, maio 30, 2008

Uma hora apenas seria suficiente...

Este texto não tem o suporte de nenhuma fotografia, mas não lhe faltam imagens (pelo menos na minha cabeça).

Tive hoje o privilégio de assistir a uma palestra do professor Fernando Catarino que, a convite da Câmara Municipal de Silves, se deslocou ao Fórum Educação e Desporto, para falar de plantas aromáticas.

O aperto de mão do professor Catarino é forte, como fortes são as suas convicções. O que mais impressiona não é a vastidão dos seus conhecimentos de Botânica, mas aquele poder de nos seduzir para o mundo mágico das plantas...

O professor Catarino não se limita a falar-nos dos segredos do mundo vegetal; fala-nos sobre a vida que nos rodeia, directamente ao coração.

Num país onde poucos respeitam as plantas e tantos desconhecem a sua importância na vida de todos nós, deveria ser obrigatório para todos os portugueses assistir a uma aula deste professor. Uma hora apenas seria suficiente...

Uma hora com o professor Catarino ou com o professor Jorge Paiva e veríamos as plantas com outros olhos, olhos de respeito e admiração. Uma hora com o arquitecto Ribeiro-Telles e teríamos outra perspectiva sobre a importância da conservação da paisagem. Uma hora com o arqueólogo Cláudio Torres e aprenderíamos a ter outro respeito para com o nosso património histórico...

Porque é isso que nos faz falta, mais respeito por Portugal e pelo nosso património: natural e construído.

Porque só se respeita o que se ama. Porque só se ama o que se conhece, fazem-nos falta mais portugueses como o professor Catarino, fortes no aperto de mão e grandes de coração...

9 comentários:

Jardineira aprendiz disse...

Subscrevo, a 100%. Infelizmente passamos demasiado tempo a ouvir Scolaris e outros que tais. Não desfazendo nas pessoas, mas acho que não acrescentam nada que se compare com as pessoas que falaste.

No nosso país (e se calhar em muitos outros) as prioridades andam todas trocadas...

Anónimo disse...

uma vez ouvi o professor jorge paiva e gostei bastante, mas uma das coisa que não esqueci foi ,sei onde estão belos exemplares de arvores mas não digo para não as destruirem.

Rui Pedro Lérias disse...

Fernando Catarino é um típico mestre português: para brilhar sozinho boicotou durante toda a sua carreira a ascenção de qualquer outro talento.

Impediu que o Jardim Botanico de Lisboa, instituição de que foi director durante décadas, atingisse um dinamismo mínimo para a sua sobrivência, boicotando iniciativas de terceiros e assegurando a exclusividade sobre a sua quinta. Ainda hoje, jubilado há anos, mantem um enorme gabinete para si, numa instituição que definha sem dinheiro sequer para a água da rega. Herança do seu estrangulamento.

A recusa na partilha de informação é outra das suas características, em comum com Jorge Paiva e outros. Ascendem a posições de privilégio e cortam rente quem ouse querer brilhar também, usando de todas as atimanhas para se exibirem.

São muitos os Catarinos neste país. E são eles os grandes culpados pelo estado das coisas: egotistas e egoistas. Com talento? Sem dúvida. Mas não merecedores das palavras elogiosas que lhe dedicas aqui.

São como um eucalipto. Frondosos e altos. Mas matam tudo à sua volta.

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Rui Pedro,

Com toda a frontalidade:

1º) Vou falar em particular do professor Jorge Paiva; por vários motivos: porque foi meu professor de botânica, orientador de estágio e foi comigo e com o Miguel Rodrigues, co-autor de um pequeno trabalho sobre as árvores da Quinta da Cruz (em Viseu). Tenho ORGULHO nisso e em que ele me estime como seu amigo.

A "sombra verde" só existe porque existe o Jorge Paiva; porque foi ele quem despertou em mim, como em muitas centenas de outras pessoas, o amor pelas plantas (e em mim, mais especificamente, sobre as árvores).

Não conheço nenhum antigo aluno do professor Paiva, e olhe que conheço muitos e de diferentes faixas etárias, que não se refira a ele com imensa admiração e estima (como professor e como ser humano).

Muitos milhares chorarão no dia em que parta, os mesmos que lamentarão este país que nunca o mereceu.

De todas as acusações injustas que lhe possam ser atribuídas, a mais injusta de todas será a de ele ser uma espécie de "ocultador" de informação ou de "construir artimanhas" para se exibir.

Nunca conheci ninguém tão ávido de partilhar os seus imensos conhecimentos e, em simultâneo, tão avesso a "protagonismos de Sr. Dr." ou a qualquer outro tipo de "homenagem".

Se culpa alguma o professor Jorge Paiva teve, para lá de todos os defeitos que tenha como ser humano igual a todos nós, foi a de ter nascido num país onde a inveja é um modo de vida que castiga os que se distinguem da mediocridade.
E, sobretudo, um país que castiga os que não se "dobram", os que "não se calam" e os que não "pactuam contra os seus próprios ideais" para subir na vida.

2º) Conheci na sexta-feira o professor Catarino; mas conheço antigos alunos seus e leio o que os jornais ou as televisões dizem a seu respeito.
Obviamente, não vejo motivos para retirar uma vírgula ao que escrevi.

3º) Considero, muito honestamente e humildemente, que o Rui Pedro deveria tornar públicas (por exemplo, num jornal de referência) as suas opiniões sobre os professores Fernando Catarino e Jorge Paiva, para que estes tivessem a oportunidade de defender o seu bom nome.

4º)Quando se diz que o professor Jorge Paiva "não diz onde ficam certas árvores" é porque, infelizmente, no mundo em que vivemos, por vezes é necessário não partilhar certo tipo de informação.
Eu próprio tenho hesitado em dar a localização de certos exemplares.
Vou até ser mais claro: de alguns não darei nunca (ou pelo menos nunca a "informação completa"). Por egoísmo? Não, pelo contrário, para dar oportunidade a todos os que amam a natureza os possam descobrir intactos, tal como eu e outros os descobriram.
Porque quem ama o natural, quem ama o património deste país, quem não tem medo de percorrer a pé as veredas deste país, acabará por descobrir estes e muitos outros "segredos".


5º) Tenho 34 anos e, sendo sincero comigo próprio, não consigo encontrar muitas coisas de que me orgulhar...Mas gosto muito deste texto que escrevi na sexta-feira passada e tenho muito ORGULHO em ter sido aluno do professor Paiva.
Possa eu um dia transmitir aos meus alunos, 10% do amor que ele incutiu aos milhares que lhe passaram "pelas mãos".

Rosa disse...

Pois eu acho que de típico (mestre) português o professor Fernando Catarino tem muito pouco (é pena, porque não faziam mal ao país mestres como ele). E se brilha sozinho, não é porque isso lhe dê prazer, mas porque não há quem brilhe como ele.

Quanto ao seu trabalho no Jardim Botânico... Talvez o Professor Catarino acredite que os jardins não devem ser dinamizados e vendidos, mas devem dinamizar e ensinar.

Júlia Galego disse...

Pedro, gostei muito do seu texto. Não conheci nenhum dos professores, embora o professor Fernando Catarino ainda leccionasse quando frequentei a Fac. de Ciências de Lisboa. As aulas de Botânica que tive foram leccionadas por dois assistentes dele. Mas era consensual o prestígio do professor e o modo como cuidava do Jardim Botânico que, no início da década de 70 do séc. passado estava muito bem tratado.
É de louvar a sua iniciativa de os referir no seu blogue. O mérito e a competência devem ser enaltecidos.

Miguel Rodrigues disse...

Confesso...
O professor Jorge Paiva leccionou uma disciplina de botânica durante dois anos na Univ. de Aveiro. Confesso que foi a única disciplina a que chumbei na parte prática mas não na teórica. Sorte a minha! Tive o privilégio de assistir durante dois anos consecutivos às aulas deste mais comunicador que professor (no tradicional sentido do termo). Não há dúvida de que é pessoa que gosta de uma plateia atenta. Mas de todas as vezes que necessitei de sua ajuda (inclusivamente para trabalhos fora da universidade), nunca ma recusou por mais ocupado que estivesse. Aliás, uma faceta que o caracteriza.

Será isto de quem pretende eclipsar os outros? Por alguns exemplos crassos que disso tive, durante o meu tempo de estudante e mais tarde, não me parece.

São pessoas como estas que inspiram gerações de investigadores ou o mais comum dos mortais a fazer algo pelo Mundo.

Rui Pedro Lérias disse...

Caro Pedro,

Considero um pouco estranha, desingénuo até, o teu comentário.

Se a nossa democracia se limitasse a fazer críticas em jornais de circulação nacional estávamos um pouco mal. O meu comentário está devidamente assinado, e insinuar que o mesmo é de alguma forma cobarde é distorcer aquilo que de facto é.

No teu blog publicas fotos de podas de árvores que consideras incorrectas - e bem. A insinuação de incompetência dos meios autárquicos envolvidos é contínua. De acordo com a tua lógica não deverias publicar essas tuas críticas em jornais nacionais?

Claro que não. Democracia é isto mesmo, liberdade de expressão nas mais variadíssimas formas. E ainda bem.

O que não é democrático é alguém decidir não divulgar informação que está na sua posse. O prazer de apreciar grandes árvores não pode ser negado porque alguém - Jorge Paiva - considera que somos todos uma cambada de idiotas incapazes de gerir a informação que ele possui.

Jorge Paiva trabalha para o Estado Português - nós - e os resultados das suas investigações - informação - são do domínio público. Em segundo lugar, só se pode proteger aquilo que se conhece e se de facto em Portugal não se protege bem muita coisa isso não pode servir de razão para esconder informação.

É difererente ocultar a localização do único ninho de águia-real em Portugal. Outra ocultar a localização de uma árvore monumental. Não encontro nenhuma justificação possível para isso. Se nós como sociedade falharmos na preservação destas árvores não cabe a Jorge Paiva pretender ser advogado e juíz. É contraproducente fazê-lo porque desaparece muito mais rápido aquilo que não se sabe onde está.

Finalmente, ainda bem que tens orgulho de ter sido aluno de Jorge Paiva. Não o conheço pessoalmente e o meu comentário referia-se a ele apenas enquanto toma a decisão prepotente de ocultar informação do público em geral por se considerar mais iluminado do que todos nós. O meu comentário referia-se ao Catarino, e não retiro uma vírgula.

Estranho no entanto alguém ter orgulho de uma acção passiva. Ser aluno de Jorge Paiva não resultou de mérito teu, ele simplesmente era professor daquela cadeira. Compreende que sintas felicidade em ter sido. Mas orgulho? Acho excessivo.

Comentas que nunca ouviste qualquer comentário negativo ao Catarino. Achas estranho? Num país endogâmico como o nosso, onde as mesmas pessoas fazem parte de comissões de bolsas, comissões de avaliação universitária, etc, etc, ninguém que queira trabalhar na área - ou noutra qualquer - tomaria essa atitude. Existe um acordo de cavalheiros, igual ao da política, onde ninguém critica ninguém. Aliás Portugal tem, por exemplo, a menor taxa de condenação pela Ordem dos Médicos de negligência médica. 2 ou 3. E sempre por imposição de tribunal.

Achas mesmo que alguém iria expor publicamente as suas criticas?

Já repeti este meu comentário na Ambio, por exemplo, e recebi resposta de alguém prejudicado pelo Catarino - mas que me pediu anonimato - a confirmar os meus comentários. Para além desta pessoa, fui aluno dele e conheço pessoas que trabalham no Jardim Botanico e na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que confirmam o mesmo.

Claro que esta faceta destes 'senhores doutores professores' só é exposta quando necessária, e preferencialmente sem as vítimas sequer se aperceberem. Para quem nunca entrou em possível rota de colisão, Catarino 'o charmoso' é sem dúvida o que fica.

Desculpa se ofendi alguma mítica tua sobre Jorge Paiva. Mas estranho a tua resposta. Dedicas o teu blog à crítica das atrocidades que se comentem país fora e à divulgação da informação. E criticas-me precisamente por ter tecido uma crítica e por criticar alguém que não quer divulgar informação.

De qualquer forma, elogio teres deixado o meu comentário ficar. Tinhas todo o direito de o apagar, o blog é teu.

Fica-te bem e se voltei para te responder foi porque louvo esta tua atitude.

Só te peço que consideres que na vida nem tudo é aquilo que parece.

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Caro Rui Pedro,

Mais uma vez, com toda a franqueza:


a) Jamais apagaria o teu comentário, precisamente porque o assinaste com o teu nome. Não aceitaria o comentário e não lhe responderia se fosse anónimo.
Vamos ver se entendes a maneira como eu vejo a "blogosfera"...Para fazer certo tipo de observações ou de críticas não penso que seja necessário ficar-se a saber o nome de quem as fez; até mesmo para certo tipo de denúncias, o anonimato é indispensável.

No entanto, quando se fazem considerações de tipo pessoal penso que se deve assinar com o nome próprio, porque os visados (pessoas ou serviços) têm direito ao "contraditório" (palavra tão na moda).
É o que eu procuro fazer em muitas das situações, nomeadamente naquelas em que faço críticas mais "personalizadas" e "contundentes", ou seja, nas relativas à Câmara da Covilhã (em que já perdi conta às cartas para os jornais...). Mesmo em relação a uma situação na Mêda, apenas fiz o texto tendo a certeza que a situação também seria (como de facto se veio a verificar) divulgada na imprensa, o que até permitiu que toda a situação se esclarecesse.

Mas tens TODA A RAZÃO nesse aspecto, nem sempre escrevo para os jornais em todas as situações; embora nem em todas eu faça considerações de âmbito pessoal.

Mas é uma situação que pretendo corrigir, porque também me incomoda e posso-te dizer que estou a trabalhar com outra(s) pessoa(s) para fazer outro tipo de denúncias futuramente. “Denúncias” que passem por uma “notificação” obrigatória dos visados...
b) Por tudo isto, ou seja, porque assinas o que escreves, jamais poderia ter considerado o teu comentário como “cobarde”. Foi também por isso que te respondi e te estou novamente a responder.

No entanto, não deixo de considerar que as tuas afirmações, que não contesto terem fundamento, deveriam ser expostas num meio mais amplo, precisamente porque, na minha óptica, elas põem em causa a “personalidade” dos visados e não apenas a sua “competência técnica”. É apenas a minha opinião, o que não significa que te considere “cobarde” se o não fizeres, entendes?! E também não significa que a minha maneira de ver as coisas é que seja a correcta e a tua a errada! Não me importo de dar “o braço a torcer”...

c)Em relação ao professor Catarino, disse que, com base na informação que tenho, não tinha motivos para retirar uma vírgula (o que mantenho). Aceito que tenhas conhecimento de situações que te façam ter uma opinião diametralmente oposta à minha...

Há uma coisa que sei em relação ao professor Catarino e em relação a todas as pessoas, a começar por mim: ninguém é santo!

d)Mantenho tudo o que disse em relação ao professor Paiva, com o qual tenho outro tipo de relacionamento.
Eu entendo o teu ponto de vista, ou seja, ninguém tem que ser “elogiado” ou receber “parabéns” por fazer bem o seu trabalho. Mas a questão é que o professor Paiva faz muito mais do que isso. Ele “inspira-nos”...E mais não te consigo explicar por palavras, só mesmo tendo passado pela experiência. E sim, sinto-me “orgulhoso” de ter sido aluno dele; tal como, muito HUMILDEMENTE, espero que um dia, algum aluno meu, possa dizer o mesmo de mim.

O Jorge Paiva não é um “mito”ou um “Deus”, que seja perfeito e que esteja acima de todas as críticas. Apenas considero que, involuntariamente, o criticaste precisamente em duas das suas maiores qualidades que ele tem: a disponibilidade para ajudar e partilhar informação com os alunos (e com qualquer cidadão em geral) e a sua aversão a qualquer espécie de “protagonismo”.


e) E por último: será que os impostos que todos nós pagamos, incluindo o próprio professor Paiva, o “obrigam” a partilhar toda a informação e não o “obrigam” a proteger alguma informação, quando está em causa a preservação de património biológico insubstituível ?!

Quando se fala que o professor Paiva pode não revelar a localização de “determinada árvore”, está-se a exemplificar, em parte, em “sentido figurado”. O professor Paiva escreveu dezenas de obras com informação sobre diversas árvores notáveis....

Mas, se em vez de uma árvore, estivermos a falar do último núcleo de uma espécie em vias de extinção, então provavelmente a melhor solução é mesmo “ocultar” essa informação. Não por egoísmo, mas a bem de todos nós...Porque há muitos botânicos sem escrúpulos que seriam os primeiros a “dizimar” esses exemplares em nome da ciência. É o mundo que temos e é esse mesmo mundo e as pessoas que nele habitam que levam, em certos casos, a que se criem reservas integrais para preservar as últimas jóias da biodiversidade mundial (como a Mata do Solitário na Arrábida ou Muniellos em Espanha).
Será que quem fez essas leis e proibiu esse livre acesso partiu do pressuposto de que somos todos uns vândalos? Não, claro que não! Quem fez essas leis partiu do pressuposto de que basta UM descuido para perder em minutos o que levou milhares de anos a construir e que, caso seja destruído, será irreparável.

É esse tipo de “informação” que o Dr. Paiva pode não divulgar. Eu faria exactamente o mesmo...Não por egoísmo, mas por amor à natureza e à espécie humana, que só poderá sobreviver se souber preservar a biodiversidade deste planeta.

f) Peço-te desculpa por um tom ligeiramente “agressivo” do meu primeiro comentário mas, na “blogosfera”, quando se escreve de “cabeça quente” as coisas assumem um “tom” que não era o desejado.

Obrigado. Um abraço e discorda “sempre"!