segunda-feira, maio 12, 2008

Porque sou contra...

Foz do rio Tua (digitalização a partir de uma fotografia tirada da linha do Tua em Março de 1996)



Nem o mais fundamentalista dos fundamentalistas será contra todas as barragens. Não me considero, em consequência, como um fundamentalista apenas por ser contra a construção de uma barragem em particular, a da foz do rio Tua.


Sou contra esta barragem por motivos bem simples: pelo que foi dado a conhecer publicamente, a rentabilidade desta estrutura não justifica a destruição de um vale único e dos valores naturais que encerra, incluindo ainda as implicações negativas que a mesma terá na economia da região duriense ao nível do turismo.


O Douro tem tudo para ser uma história de sucesso no que toca à rentabilidade turística aliada à preservação da paisagem. No entanto, as pessoas com poder de decisão em Portugal consideram que, talvez para não destoar do resto do território, também aqui é impossível conciliar o desenvolvimento económico com a preservação ambiental e paisagística.

Para o bem da uniformização do país estamos todos condenados ao betão e à mediocridade.


Passadas algumas décadas de adesão à União Europeia (UE), uma boa parte dos países que aderiram por último à UE, já nos ultrapassaram nos principais indicadores de desenvolvimento económico.

Alguém deveria "levar este país à psicanálise" para tentar encontrar as razões da nossa obsessão pelo betão e o porquê de, depois de tantas barragens, auto-estradas, pontes e estádios de futebol, o país continuar a empobrecer a cada dia que passa...É este "milagre económico", mas ao contrário, que os apóstolos do desenvolvimento baseado no betão não conseguem ou não nos querem explicar.


Claro que este empobrecimento do país não é geral e não atinge aqueles que, entre nós, beneficiam do culto ao "Deus betão", os mesmos que parecem ser os únicos a lucrar com a construção desta barragem no Tua (a par dos grandes accionistas da EDP).


Mostrem-me um exemplo de uma cidade, concelho ou região do nosso país, que se tenha desenvolvido à custa da construção de uma barragem* e eu serei o primeiro a apoiar a construção desta estrutura no Tua. (Aliás, não deixa de ser altamente significativo a oposição do autarca de Mirandela à construção da barragem do Tua).

* Espero que ninguém tenha "pensado" no Alqueva, até porque esse é o pior exemplo possível que pode ser dado em Portugal em diversas vertentes, desde o planeamento à execução.




É claro que o país necessita de reservas estratégicas de água e de fontes de energia não poluentes; embora o pretexto do dito "aquecimento global" para justificar a construção desta e de outras barragens seja um supremo exemplo de hipocrisia política!

Não me parece pelo que foi tornado público dos estudos que sustentam a construção da barragem do Tua, que a mesma seja imprescindível ou tenha um impacto significativo numa estratégia nacional, quer em termos de política da água, quer em termos de política energética.


Ao nível da gestão dos seus recursos hídricos e dos seus recursos energéticos, o país continua a desperdiçar as suas principais riquezas: a poupança e um uso eficiente desses mesmos recursos!
Num país pobre em recursos, incluindo os económicos, este uso eficiente da energia deveria ser a nossa principal prioridade. Ao invés, o país continua a dar exemplos flagrantes de desperdício de energia, desde a iluminação pública das cidades até à construção dos edifícios.

O Estado central, por exemplo, continua a não ter uma estratégia que privilegie o uso do transporte ferroviário face ao rodoviário e, com a construção desta barragem, prepara-se para encerrar em definitivo mais uma linha de comboio. Tudo em nome do combate ao "aquecimento global"! Brilhante...


É estranho como em Portugal "não existem" fundamentalistas do betão e, pelo contrário, abundam os velhos do Restelo, os que se opõem ao "desenvolvimento"...Enfim, essa tribo dos ambientalistas (estes sim, os verdadeiros fundamentalistas!). E, no entanto, hoje estamos mais pobres do que ontem e cada vez mais longe de espanhóis, eslovenos ou alemães.


Tenho para mim como verdade a seguinte constatação: um povo que não consiga impedir a construção da barragem do Tua, que não se revolte com a destruição de um património único, é um povo que não merece o seu país, que não merece Portugal!


Seja um dos que não se resigna e assine e divulgue a Petição pela Linha do Tua Viva. Obrigado.


P.S. - Para ler também: "Destruir a natureza em nome do ambiente".


10 comentários:

Júlia Galego disse...

Muito interessante e elucidativo o seu artigo. Não estava muito esclarecida sobre o assunto mas, agora, não pude deixar de assinar a petição.

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Viva Júlia,

Obrigado. O que está aqui em causa não é nenhum manifesto "anti-barragens" que são, em Portugal como em todo o lado, um "mal" necessário (para o consumo de água e para a produção de energia).

Apenas vou aos "arames" com um país que continua a investir em parques eólicos, barragens, centrais de biomassa e muitas outras formas de produzir energia, não apostando antes em formas de rentabilizar a eficiência energética (sobretudo ao nível dos transportes e nos edifícios, cidades, etc.). Não que seja contra TODAS as barragens, parques eólicos ou centrais de biomassa.

Apenas considero que a prioridade deveria estar na "poupança" e no "uso eficiente" dos (poucos) recursos que temos.

Ao invés, investimos em mais e mais construção, alimentando um dos lóbis mais fortes deste país (o da construção civil), com a vantagem de passar uma imagem de "modernidade" e "progresso" para a população. Quer se queira, quer não, para o português médio as palavras "desenvolvimento" e "betão" são inseparáveis e indissociáveis.

Este caso do Tua é paradigmático. Destrói-se um vale ímpar, todos os seus valores naturais e todo o seu enorme potencial turístico, em nome de uma estrutura que terá um peso ínfimo para a própria EDP. Confunde-se o interesse dos grandes accionistas da EDP e das cimenteiras, com os reais interesses de Portugal. E ainda se desculpam com as metas do "Protocolo de Quioto"!

Um pequeno conselho para a Júlia e para todos os leitores: vão conhecer este vale enquanto é tempo. Não darão o tempo por perdido e farão uma das viagens da vossa vida...

Um abraço.

P.s. - Obrigado pelo comentário no Flickr.

Miguel Rodrigues disse...

Pois é!
Continuamos com a teoria da banheira: em Portugal, para se encher uma banheira com água, abre-se a torneira até partir, mas não passa na cabeça de ninguém... fechar o ralo!! Seria cómico se não fosse estúpido e dramático a todos os níveis.

Também o aquecimeto global e as catástrofes que está a trazer não são, como se vê, a preocupação de quem nos governa (apesar do que apregoam à boca cheia!).

Veja-se o que aconteceu na Ericeira. A Câmara Municipal, com verdadeiro espírito ambiental, tenta reciclar os óleos vegetais para combustíveis. Vantagens a vários níveis. É multada por não ter conseguido uma autorização pq a cota de produção de biodíesel já foi atingida. Lá se foi a campanha verde do governo! O mesmo que planta eólicos e barragens como se plantou o trigo na década de 30: na base do exagero! Abençoados os impostos nos derivados do petróleo que já vão subir 3cent amanhã...

Osvaldo Lucas disse...

Só para contrariar...:)

Um exemplo de uma cidade, concelho ou região do nosso país, que se tenha desenvolvido à custa da NÃO construção de uma barragem?

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Osvaldo,

Pois é, esse é que é o "problema". Passo a explicar:

- Veja-se o caso de Foz Côa; tudo aquilo que foi prometido com a NÂO construção da barragem, não foi cumprido. E podia ter sido feito tanto para promover um turismo cultural de qualidade (entenda-se com "elevado poder de compra" que dinamizasse a economia local).
É claro que depois as pessoas se revoltam contra o Estado e com alguma razão.

Apesar disso, e com quase tudo por fazer (Museu, hóteis de qualidade, acessos de qualidade, reabilitação da linha de comboio até Barca d'Alva,...), têm sido milhares a visitar o Parque Arqueológico do CÔa.
Duvido, e isto é uma opinião estritamente pessoal, que essas pessoas tivessem ido a Foz Côa pelo "espelho de água" (mas posso estar enganado!).
E há também outras fontes de emprego que foi possível manter com a não construção da barragem, como as de todos os que trabalham na Quinta da Ervamoira.
Claro que a construção da barragem teria dinamizado bastante a economia local durante o período de construção...

Mas se o Estado tivesse cumprido tudo o que "prometeu a Foz Côa", não duvido que teria havido outro impacto e desenvolvimento.

Aliás, acerca do caso do Tua, não deixa de ser bastante relevante a oposição do autarca de Mirandela, ciente que os ganhos com um "turismo de qualidade" são potencialmente bem superiores aos ganhos que advirão da construção da barragem.

Qualquer pessoa que vá ao Tua perceberá a dimensão de tudo o que se irá perder...

Volto a dizer que não sou contra todas as barragens. Mesmo no caso do Alqueva, e agora que já está feito, não me choca uma exploração turística moderada.
O problema é que em Portugal é tudo "8 ou 80" e se se começam a abrir excepções, daqui a uns anos teremos as margens do Alqueva totalmente betonizadas com resorts e mais resorts.

É uma questão de moderação...

Paulo Araújo disse...

Artigo muito oportuno que toca no ponto fundamental: o nosso modelo de desenvolvimento só tem empobrecido o país e estragado o território. E para reconhecermos uma verdade tão óbvia não precisamos de fazer nenhuma profissão de fé ambientalista.

Osvaldo Lucas disse...

Vamos então ver um ou outro caso particular

Veja-se o caso de Foz Côa:
"tudo aquilo que foi prometido com a NÂO construção da barragem, não foi cumprido."
Ou seja estaríamos a contar que o ESTADO investisse (Museus, linha, etc)...
"E podia ter sido feito tanto para promover um turismo cultural de qualidade (entenda-se com "elevado poder de compra" que dinamizasse a economia local)."
Bom, não tenho dados para saber se a razão custo/benefício seria aceitável ou não...
Mas neste momento os "bonecos" (as imagens) das gravuras estão preservados... porque não construir a barragem? Não tenho a certeza de que TODAS as imagens ficariam submersas, algumas seriam possível de recortar e levar para cotas mais altas, os acessos por barco seriam mais fáceis do que ir um grupo de 2 ou 4 pessoas por 4x, etc

"Duvido, e isto é uma opinião estritamente pessoal, que essas pessoas tivessem ido a Foz Côa pelo "espelho de água" (mas posso estar enganado!)."
Admito que em termos aproveitamento de espelhos de água o país é BURRO. Os contratos de exploração não acautelam valores máximos de variação de cota pelo que o que hoje pode ser uma praia, amanhã pode estar submersa ou a 50m e sem acessos... e ainda a manutenção da qualidade da água (ou seja ETARS a funcionarem a 99%, etc). A gestão piscícola é mal feita, uma actividade que em França e Inglaterra (e tb em Espanha) gera MILHÕES em Portugal é quase apenas... o que vem à rede é peixe, e se não há peixe deve ser pelas motas de água a 50km/h.

"acerca do caso do Tua, (...) a oposição do autarca de Mirandela, ciente que os ganhos com um "turismo de qualidade" são potencialmente bem superiores aos ganhos que advirão da construção da barragem."
CIENTE? POTENCIAIS?
Pelo que vou lendo, a linha férrea é "pouco" segura, a quantidade de turistas da automotora deve ser um buraco financeiro para a exploração...
Sim, vai ser impossível ver o vale profundo do Tua (nalguns km), mas a vista para cima em viagens de taxi-boats também é capaz de ser interessante...

"...daqui a uns anos teremos as margens do Alqueva totalmente betonizadas com resorts e mais resorts."
Existe o POAAP.

Vide ainda o conjunto de artigos interessantes de Francisco José Lopes, http://blogs.3e.com.pt/resistir.php?cat=15 sobre a barragem do Baixo Sabor

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Caro Osvaldo,

Vai interessante a discussão (é assim que eu gosto e lamento que não ocorra mais vezes...)

Em relação a Foz Côa, como em relação a quase tudo neste país e por razões que seria interessante aprofundar, tudo ou quase tudo depende do investimento do Estado. Se me perguntar a mim, e talvez com a excepção dos acessos, tudo o resto podia (e deveria) ser feito por iniciativa privada.

Mas este é o país que temos, o Estado que temos e o "espírito de iniciativa" que não temos...



Poderia voltar a mencionar a questão do país estar a "anos-luz" de por em prática iniciativas que promovam a eficiência enérgica (a começar pelos lares dos portugueses; sim, não basta incentivar as pessoas a mudar umas "lampadazinhas"!...) Políticas essas que poderiam reduzir em muito as necessidades energéticas do país.

Poderia também suscitar algumas reservas baseado no que foi tornado público pela própria EDP, sobre a importância estratégica desta barragem do Tua no todo nacional.

Mas não, há coisas mais importantes...Há coisas que pura e simplesmente não são quantificáveis. O valor que o vale do Tua encerra é um desses casos...

Se a linha do Tua não é segura, há formas de a tornar segura; se a exploração comercial é deficitária, entregue-se a respectiva exploração a privados.

Se o Osvaldo for ao Tua e contemplar o seu "silêncio" perceberá, coisa que nenhum estudo pode explicar ou quantificar, o dever moral que o país tem de preservar aquele vale para as gerações futuras.
Indo lá, caro Osvaldo, se não compreender isto, se não se emocionar com aquele vale, não há nenhum argumento que eu possa invocar e que o convença do contrário...

Poderá argumentar que os "argumentos emotivos" não contribuem para o progresso do país! Bom, se o "betão", por si só, contibuísse para o progresso de Portugal, há muito que estaríamos na dianteira. Eu também já estive na Irlanda, não percebi os motivos do seu progresso, mas vi as estradas que não têm...
Não se trata, por exemplo, de ser contra as auto-estradas (eu também gosto de viajar nelas...); trata-se apenas de, neste caso particular, discordar da ideia de que estas, por si só, resolvem todos os problemas de desenvolvimento do país (nomeadamente do interior) e de discordar de casos pontuais nos respectivos traçados (quando cortam "serras ao meio", como no caso da A1 na Serra de Aires, ou quando bastaria ter feito um desvio de alguns km para salvaguardar alguns habitats importantes, como no caso da A2 em Castro Verde).

Compreenderá que não está a falar com um "fundamentalista" que é contra todas as barragens ou contra a exploração turística das mesmas. Considero apenas que o país deveria dar clara prioridade ao uso racional da energia e que há certos vales que encerram um património natural, humano e paisagístico que deve ser preservado (e também ele rentabilizado em termos de um turismo sustentável). O Tua é claramente um desses casos...

Eu estive apenas uma vez no Tua e não há nenhum estudo que me convença que esta barragem é imprescindível a Portugal e que a mesma contribuirá para o progresso da região do Tua. Isto é ser fundamentalista? Talvez... Darei o "braço a torcer" neste ponto: sou um "fundamentalista do Tua".

Convido-o a visitar este vale e a tornar-se também um "fundamentalista" do mesmo...

Obrigado pelas sugestões de leitura. Irei ler esses artigos que refere com atenção.

Cumprimentos.

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

P.S.- Em relação ao plano de ordenamento das margens do Alqueva, como em relação a todos os demais instrumentos de ordenamento do nosso território, têm hoje um instrumento que os ultrapassa: os PIN's!

Claro que concordo que haja uma agilização no licenciamento de certos investimentos que se arrastam nas malhas da burocracia lusa.
Não concordo é que o Estado faça "tábua rasa" das leis de ordenamento do território que ele próprio aprovou (feitas com base em pareceres técnicos de especialistas na matéria).

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

P.S.S.- Para ver com muita atenção: http://www.youtube.com/watch?v=Kf5UQH5E48w