quinta-feira, janeiro 08, 2009

Retrato da árvore em Portugal

Fotografia - Blogue "Paul dos Patudos"

Joaquim Vieira Natividade (1899-1968), o grande agrónomo que foi também silvicultor e um dos maiores especialistas mundiais do sobreiro, se não o maior, escreveu de facto um artigo publicado em 1959 (intitulado "A árvore e a cidade") que foi republicado em 1976 num livrinho intitulado "O Culto da Natureza" (edição da então Secretaria de Estado do Ambiente, sob os auspícios do professor Manuel Gomes Guerreiro, que foi seu amigo e colaborador). Esse livro reúne três textos extraordinários de Vieira Natividade.

Eis a parte do referido artigo que se refere à forma como as vilas e cidades de Portugal tratam a árvore. Infelizmente, cerca de 50 anos mais tarde, as coisas não melhoraram. Talvez tenham mesmo piorado significativamente.


«Uma das coisas que desfavoravelmente impressiona quem visita o nosso País é a incapacidade, aparente ou real, para, com inteligência e dignidade, aproveitarmos a árvore no urbanismo. Há quem fale, à boca pequena, de atávicos instintos "arboricidas", o que é desprimoroso, antipático, quando não degradante e sinistro, porque pode levar a crer que, apesar de baptizados e de nos termos por bons cristãos, de todo nos não libertámos ainda dos vícios e das tendências ingénitas, da infiel moirama. Para se contornarem os melindres, recorramos, não já ao neologismo "arborifobia", porventura também cruel, mas a eufemismos suaves e eruditos, como a dendroclastia, para traduzir o desamor de muitos dos nossos municípios pela árvore ornamental. Em boa verdade, por esse País fora, em tantas caricaturas de jardins a que se dá por vezes o nome de parques municipais, raro se nos depara uma árvore verdadeira, uma árvore autêntica, em todo o esplendor da majestosa arborescência; a árvore esbelta, digna, umbrosa e acolhedora, orgulho da Criação. Onde acaso existiu, poucas vezes escapou a brutais mutilações que a transformaram em grotesco "Quasímodo", sem o mínimo respeito pela dignidade do mundo vegetal.

Nos jardins, em lugar da árvore, plantou-se um reles "ersatz" uns arbustozitos burlescos, quase bobos arbóreos, tão inúteis que nem dão sombra a uma pessoa crescida: as tais falsas acácias de importação, maneirinhas, embonecadas, dengosas, com o ar, não de fazerem parte do jardim, mas de terem ali ido, em passeio, exibir ramagem, com a sua “permanente” manipulada no salão de qualquer "coiffeur" arborícola municipal. Compreende-se, num povo de fraca cultura, o desamor instintivo ao marmeleiro e ao castanheiro, árvores estas consideradas, desde remotos tempos, estimáveis ferramentas de educação e esteio dessa vida patriarcal, austera e digna, que os velhos, ao olharem o que vai pelo mundo, recordam com saudade e respeitoso enlevo. Já se não compreende, todavia, que se mutilem ou suprimam sem piedade o ulmeiro, o plátano, o umbroso freixo, o álamo esbelto, os nobres e austeros ciprestes, os cedros, os carvalhos e tantos outros soberbos gigantes vegetais que, estranhos, embora, muitos deles à nossa flora, encontraram na Lusitânia como que a sua segunda pátria.

Num país castigado por uma ardente canícula, dir-se-ia que temos horror à sombra; onde se pediam arvoredos frondosos e acolhedores, o ninho de um oásis a suavizar as inclemências do estio, fizemos terreiros imensos, cruamente ensoalheirados e inóspitos; quando tantos dos nossos monumentos lucrariam com uma nobre moldura vegetal que acarinhasse e aquecesse a frieza da pedra ou por vezes quebrasse, com a cortina da folhagem, a monotonia das grandes massas arquitectónicas, e num ou noutro caso escondesse até a sua real pobreza; quando a presença da árvore exaltaria o poder evocador e o poético encanto que emana de tantas ruínas, como acontece aos templos perdidos nos bosques sagrados da Grécia nós, pela calada, metodicamente, cinicamente, fomos degolando, mutilando, rapando tudo o que tivesse jeito de árvore para não prejudicar as “vistas”, tal como faria qualquer ricaço de letras gordas aos empecilhos que ofuscassem ou escondessem os arrebiques pelintras do seu "chalet".

O que haveria a dizer sobre as grandezas e as misérias da árvore nas cidades e nas vilas de Portugal!»


Joaquim Vieira Natividade (1899-1968)



P.S. - Texto que me foi enviado pela Manuela Ramos, co-autora do "Dias com Árvores".


7 comentários:

Anónimo disse...

Informo-te que te designei para um Prémio Dardos. Com este prémio simbólico “se reconhece o valor que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.”

Parabéns!
Está tudo aqui:
http://ondas3.blogs.sapo.pt/1346419.html
Octávio Lima

Rosa disse...

Este texto devia estar afixado à porta de todos as Câmaras Municipais do país. Muito bom!

Júlia Galego disse...

Pedro, posso usar este texto no meu blogue? É evidente que identificando a origem.
Tenho fotografias que ilustram situações diferentes, umas de acordo com as perspectivas do autor, outras que são o oposto.
Abraço

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Octávio,

Obrigado pelo reconhecimento. Escusado será dizer que o "Ondas" é uma referência para mim.

Abraço.


Rosa,

Das Câmaras, das Escolas, etc. É absolutamente arrasador para com as práticas que vemos, anualmente, por toda a parte...E sem emenda!


Júlia,

Com certeza que sim, nem precisava pedir autorização pois o texto nem sequer é de minha autoria. Tal como a Manuela Ramos o partilhou comigo, eu partilho-o com quem o quiser divulgar.

Um abraço.

P. faúlha disse...

Nuno,

É realmente um belo o texto de Vieira Natividade, ao que parece de uma intemporalidade a toda a prova para este pequeno rectângulo de ignaros.

Aqui partilho(como contribuição) um pequeno texto do mestre do Natividade e do Gomes Guerreiro no curso de silvicultura do ISA, o prof. Mário de Azevedo Gomes, retirado de um livrinho de 1916, destinado à "educação popular", com o nome sugestivo "A Utilidade das Árvores" [reeditado pela Câmara Municipal de Sintra, no dia do Ambiente do ano passado]:

"X - A beleza que os arvoredos encerram

(...)
Disponha, pois, só de mais alguns minutos, antes de nos despedirmos; e oiça agora falar ainda da árvore, mas sôb outro aspecto.
Ponhamos de banda propriamente os serviços que a árvore presta; e vamos a vêr o que ela tem de agradável para nós.
Repare o leitor que, além das coisas a que damos mais valor porque nos são de maior utilidade e satisfazem as nossas necessidades primeiras, outras há que também valem só pelo prazer que nos dão quando as vemos, só porque são belas.
O que mais distingue um homem educado daquele que o não é, é justamente o apreço que o primeiro dá aquilo que tem beleza e o saber distinguir nas coisas que o cercam onde essa beleza se encontra.
(…)
Não, meus caros leitores, não ha só isso a considerar nas árvores; não ha só que vêr o que elas produzem e que calcular o valor dos seus produtos; ha ainda, por assim dizer, que agradecer-lhes, e que gostar delas, pelo conforto, pela alegria, pelo prazer de dentro da alma que nos dão quando são belas, e as topamos, às vezes tristes, às vezes cansados no nosso caminho.
(…)
Não é preciso dizer mais: no campo, como na cidade, a árvore é bela; por sua intervenção é que a gente se afeiçoa a determinados sítios; graças a ela é que damos preferência muitas vezes a determinados passeios; e alegres ou tristes que nos sintâmos será em frente da paisagem que ela embelezar que nos encontraremos bem, para pensar tranquilamente nas nossas tristezas, ou para dar largas à nossa alegria de viver!
A árvore, acreditai-me leitores, é uma boa amiga nossa!”

Só mais uma nota, relativamente à imagem que mostra neste post: não sei se é mais criminoso aquele que decepa a árvore, se quem a plantou. Aquela árvore naquele estreito passeio é um claro erro de casting.

Abraço e bom ano de 2009!

P. Faúlha

Artemísia disse...

Quase nem se identifica que há uma árvore na foto... nem já se lhe pode chamar árvore. é antes um retrato fiel da imbecilidade que grassa no tratamento destes seres vivos..

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Caro P. Faúlha,

Antes de mais, agradeço e retribuo os votos de um Feliz 2009.

Belíssimo texto este que me deu a conhecer. Quando se tem o dom da palavra e se acredita no que se escreve, acontecem estes pequenos milagres...Irei publicá-lo, em breve, com uma fotografia de um dos meus locais preferidos na Estrela.

Em relação à sua última observação, considero que tem toda a razão. Grande parte destes crimes poderia, e deveria, ser evitado na hora de escolher a árvore a plantar. Sabendo, igualmente, que muitos locais, como este, dificilmente possuem espaço suficiente para um arbusto, quanto mais para uma árvore!

Também irei novamente chamar a atenção para tal em breve.

Um abraço.


Artemísia,

Há coisas para as quais é difícil encontrar adjectivos. Infelizmente e pelas piores razões, tal parece acontecer demasiadas vezes, no nosso país, quando falamos das árvores nas cidades.