quarta-feira, outubro 14, 2009

O patinho feio

Igreja da Santíssima Trindade. Bairro da Estação, Covilhã.


Desde miúdo que me lembro deste cedro (Cedrus sp.). E desde miúdo que me lembro dele assim, escanzelado.

É como se o passar dos anos lhe fosse indiferente, como se tivesse cristalizado no tempo. Como dele não tenho outra memória, nunca percebi o que o fez assim, enfezado, se é resultado de obra humana ou se é resultado da sua própria natureza.

No entanto, com os anos, habituei-me a aceitá-lo assim, um patinho feio comparado com outros cedros monumentais que crescem no Bairro da Estação, na Covilhã.

Nos anos mais recentes, o terreno que o viu crescer passou de descampado a estaleiro de uma igreja, cujas obras se arrastaram durante anos.

Nunca tendo partilhado esta certeza com ninguém, sempre suspeitei que o dia de conclusão da obra da igreja ditaria o seu fim. Mas enganei-me...

Por uma vez, num acto de humildade, quem decidiu a construção da igreja, quem a desenhou e construiu, decidiu aceitá-lo. Não o entendeu como uma afronta na paisagem, como um obstáculo à contemplação da obra humana.

Curiosamente, a Igreja da Santíssima Trindade reduz-se no espaço com a presença do cedro, na mesma proporção com o cedro aumenta a sua marca na praça, com a vizinhança do templo humano construído a seus pés.

Nesta história todos ganharam algo. E eu não perdi o meu patinho feio!

6 comentários:

José Manuel Salvado disse...

E com esta igreja foi-se o telhado de zinco que em dias de chuva dava uma musicalidade diferente aos sermões do Padre Lacerda.

as-nunes disse...

Fantástico, Pedro!

Em sentido oposto raciocinaram os projectistas que, em Leiria, destruíram, pura e simplesmente, o mais bonito Eucalipto de flor vermelha que eu jamais vi. Restam as várias fotos que eu lhe tirei e que aqui tenho publicadas.

Um abraço

Aqui, Leiria
António

Anónimo disse...

Olá Pedro,

Enviei um email para o mail do sombra verde a pedir o grnade favor de me enviar um texto para a Árvores de Portugal. Falta o título do post que pode ser "A Araucária".

Abraço!
João Martins

Anónimo disse...

Olá Pedro,

Más notícias. Infelizmente em Loulé continuam os abates. Não há fim...
Ver aqui: http://macloule.blogspot.com/

Abraço
João Martins

Anónimo disse...

Boa noite Pedro.
Li o seu texto no Máfia da Cova. Parabéns. Ainda bem que, aqui e ali, no meio da tanto lixo bloguista gratuito, se apanham "coisas" boas e lindas como o texto que escreveu.Acredite, que também eu,há muitos anos, me lembro daquela árvore... assim, tal e qual está agora.
Poderia arriscar, mas sem certezas, que aquela árvore, já esteve integrada num pátio de recreio, de uma escola preparatória que ali existiu naquele local. Já lá vão cerca de 40 anos. E eu subi-a várias vezes.

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Obrigado pelos elogios. E parabéns a si, por ainda poder ver de pé uma árvore à qual teve oportunidade de subir, em criança.
Na verdade, com este exemplo, penso que estamos todos de parabéns na nossa cidade. Por uma vez, foi possível requalificar um espaço sem abater uma árvore.
Que este exemplo possa prosperar!