quarta-feira, novembro 21, 2007

Las encinas




(...)¿Qué tienes tú, negra encina
campesina,
con tus ramas sin color
en el campo sin verdor;
con tu tronco ceniciento
sin esbeltez ni altiveza,
con tu vigor sin tormento,
y tu humildad que es firmeza? (...)

Antonio Machado

P.S- Obrigado à Júlia que me deu a conhecer este extraordinário poema de Antonio Machado - podem lê-lo na íntegra nesta página.

terça-feira, novembro 20, 2007

Azinheira ou azinheiras?

Nas paisagens asturianas, no que respeita a árvores, o que mais me surpreendeu foi a profusão de azinheiras, em particular em vales abrigados (por exemplo: vale do rio Somiedo nas imediações da povoação de Pola de Somiedo) - ler mais aqui.


Habituados que estamos a associar a azinheira a terras mais meridionais, tendemos a esquecer que os limites bioclimáticos não são fixos e variam ao longo do tempo. A este propósito convém ler o que Jorge Capelo e Filipe Catry escreveram no volume 3 da colecção "Árvores e Florestas de Portugal": "...a azinheira atinge actualmente a Cordilheira Cantábrica em vales abrigados (...) sob clima temperado. Terá chegado a tais territórios tão setentrionais em fases climáticas de características mediterrânicas acentuadas, generalizadas em toda a Península Ibérica".


Azinheiras no vale do rio Somiedo

No entanto, a observação das folhas destas azinheiras asturianas, bem como de outras características, põe em evidência a questão que resumi no título deste texto: será que existe apenas uma espécie de azinheira, com duas subespécies ou, pelo contrário, poderemos distinguir duas espécies? Esta é uma questão que tem dividido e continua a dividir os botânicos.


Para alguns botânicos existe apenas uma espécie de azinheira: Quercus ilex L.; esta espécie teria duas subespécies: Quercus ilex subsp. ilex e Quercus ilex subsp. rotundifolia (o mesmo que Quercus ilex subsp. ballota).

(Nota: decidi suprimir o nome dos autores para evitar tornar esta explicação ainda menos perceptível.)


No entanto, mais recentemente, parece crescer o consenso quanto à existência de duas espécies distintas:


- Quercus rotundifolia Lam. - esta será a azinheira espontânea em Portugal, na maioria do território espanhol e no Norte de África. Possui folhas elípticas ou arredondadas, podendo as margens das mesmas ser inteiras ou apresentar dentes espinhosos.



Folhas de azinheira - S. Brás de Alportel

- Quercus ilex L. - esta será a azinheira que cresce na Cordilheira Cantábrica e desde o Sul de França até ao Mediterrâneo oriental. Possui folhas oblongo-lanceoladas (semelhantes às folhas de loureiro).

Acresce que a distinção entre estas duas espécies (ou subespécies) é particularmente difícil em zonas de transição e contacto geográfico, dada a facilidade com que se observam exemplares com características intermédias.

Folhas de azinheira - Somiedo (Astúrias, Espanha)

segunda-feira, novembro 19, 2007

Aveleiras

Aveleira (Corylus avellana L.) - Somiedo (Espanha)

A aveleira (Corylus avellana L.) é, dentro das espécies lenhosas, uma das que está no topo das minhas preferências. Como quase tudo o que se relaciona com preferências, não existirá propriamente um motivo concreto que o justifique.


Ainda assim, talvez um possível motivo resida na relação que estabeleci com uma aveleira que tive na minha varanda da Covilhã. Nascida de uma avelã plantada por mim, sobreviveu a uma poda radical de autoria do meu pai (como todas, feita com a melhor das intenções!...) e a vários esquecimentos em matéria de rega.


Lá foi sobrevivendo até ser transplantada para a quinta de uma amiga. Aí sobreviveu ainda mais alguns anos, até que decidiu morrer no ano passado. Até as sobreviventes se rendem um dia!...


Aveleira (Corylus avellana L.) - Somiedo (Espanha)

A aveleira (Corylus avellana L.) é uma espécie autóctone do nosso país em zonas de acentuada influência atlântica; possui como habitat preferencial zonas húmidas e sombrias, como seja o sub-bosque de carvalhais.

A aveleira é uma espécie caducifólia, muitas vezes na forma arbustiva mas que pode originar uma pequena árvore (até 10 metros).

É tambem uma espécie cultivada em certas zonas do Centro e Norte pelo valor do seu fruto. Um dos locais onde pude recentemente fotografar exemplares de porte arbóreo foi na Cerca do Mosteiro de Tibães.

Aveleira (Corylus avellana L.) - Cerca do Mosteiro de Tibães (Braga)

domingo, novembro 18, 2007

Excentricidades








Quando um dia me cansar d'a sombra, provavelmente irei fazer um blogue apenas sobre nuvens.

Apraz-me saber que não estou e que existe uma sociedade para apreciadores de nuvens: The Cloud Appreciation Society. Apenas para quem não se resigna à tirania do céu azul! Excentricidades....

P.S. - De cima para baixo: nuvens nos céus de Aljezur, Galiza (Província de Lugo) e Covilhã.

sábado, novembro 17, 2007

sexta-feira, novembro 16, 2007

El Olivo Santo

Zambujeiro (El Rocío, Almonte - Espanha)


O zambujeiro [Olea europaea L. subsp. europaea var. sylvestris (Miller) Lehr.] retratado nestas fotografias (da autoria de Miguel Rodrigues) é um dos exemplares conhecidos como Acebuches del Rocío, os quais se situam na povoação de El Rocío (município de Almonte, província de Huelva), num dos limites do Parque Nacional de Doñana.

Estas árvores têm um estatuto de protecção (Monumento Natural) concedido pela Junta da Andaluzia, já que ao que consegui apurar através da internet, não existirá uma lei específica do Estado espanhol para a protecção das árvores (ver este texto).


E o que faz destes zambujeiros e, em particular do exemplar retratado* nestas fotografias, árvores tão especiais ao ponto de merecerem este estatuto de protecção? O melhor é lermos o que a este respeito escreve Susana Domínguez Lerena no magnífico "Árboles, Leyendas Vivas"


*Este exemplar é conhecido localmente como El Olivo Santo, o que poderá causar alguma confusão porque olivo é a designação vulgar (em castelhano) para oliveira; e, na realidade, esta árvore é um zambujeiro (acebuche em castelhano), ou seja, a variedade silvestre da oliveira.



Zambujeiro - (El Rocío, Almonte - Espanha)



De forma resumida, e segundo reza a lenda, no século XV um caçador de Villamanrique que se aventurou no Bosque de Las Rocinas, terá encontrado uma imagem de Nossa Senhora num enorme zambujeiro.


Por entre algumas peripécias que se seguiram, ao longo dos anos subsequentes terá crescido entre as populações vizinhas uma devoção muito particular a esta pequena imagem de Nossa Senhora. Esta devoção culminou a 29 de Julho de 1653, na aclamação da Virgen del Rocío como padroeira de Almonte.

Na actualidade, as festividades da Virgen del Rocío atraem mais de um milhão de peregrinos que se juntam na veneração a esta imagem; a procissão detém-se em frente ao Olivo Santo, o mesmo zambujeiro onde, de acordo com a referida lenda, a imagem teria sido encontrada.




Zambujeiro - (El Rocío, Almonte - Espanha)

As medidas para este zambujeiro referidas na obra "Árboles, Leyendas Vivas":

Altura = 14 metros
Perímetro à altura do peito = 8 metros
Diâmetro da copa = 22 metros

O Olivo Santo tem uma idade estimada de 700 a 800 anos.

quinta-feira, novembro 15, 2007

O verbo "requalificar" - um vanguardismo português

Em Portugal, o verbo "requalificar", pelo menos no que concerne aos espaços urbanos e às Áreas Protegidas, começa a causar-me calafrios...

Porquê? Porque parece implicar o obrigatório corte de árvores!

Foi assim, mais uma vez em Albufeira, com as obras de requalificação da Avenida dos Descobrimentos, as quais implicaram o sacrifício de várias pimenteiras-bastardas (Schinus molle L.). Supostamente, era necessário alargar os passeios e reformular a iluminação pública e, caso bicudo da engenharia urbana, revelou-se impossível conciliar esta necessidade com as árvores existentes.

O dia escolhido para esta operação não podia ter sido mais simbólico: 21 de Março (supostamente, o Dia da Árvore)!

Albufeira (21 de Março de 2007)


Albufeira (21 de Março de 2007)


Albufeira (Novembro de 2007)


Albufeira (Novembro de 2007)

Mas a originalidade da Câmara de Albufeira não termina aqui. No lugar das árvores cortadas decidiu plantar outras árvores, já podadas da forma que se pode ver nas fotografias.

Sim, porquê esperar alguns anos para decepar as árvores? Vamos plantá-las já decepadas!

P.S. - As duas primeiras fotografias são do Miguel Rodrigues. Estas fotografias andaram "perdidas" durante alguns meses (motivo pelo qual ainda não tinha denunciado este atentado), mas reapareceram, em boa hora, para poder publicitar estas maravilhas vanguardistas que ocorrem na cidade de Albufeira.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Tília à luz/Tília à sombra

Covilhã, Jardim Público [Outono 2007]

Do blogue Sparboricultura chega uma sugestão muito interessante de leitura - um artigo do jornal Sol sobre amigos das árvores (gente doida, já se vê!...).

Covilhã, Jardim Público [Outono 2007]

Um Covão em acelerado processo de "requalificação"








Os blogues Estrela no seu Melhor (de quem são estas fotografias) e O Cântaro Zangado têm denunciado o processo de pretensa requalificação do Covão d'Ametade que, como escreve o José Amoreira, está em acelerado processo de se transformar numa espécie de Costa da Caparica.

P.S. - A estrutura semelhante a um "pombal" que se vê na segunda fotografia (já construído) e na terceira fotografia (em construção) é um assador; supostamente para ser usado (no Verão?) no coração de um dos últimos bosques que subsistem naquela zona do Parque Natural da Serra da Estrela.

terça-feira, novembro 13, 2007

O Outono desceu à cidade...

...e vestiu-a dos tons quentes próprios da época (ainda que o termómetro e o céu insistam em não estar de acordo com a época).

Retratos de uma cidade a vermelho, amarelo e todos os tons intermédios [Covilhã, Outono 2007]


















P.S. - Por mais que não queira pensar nessa possibilidade, este pode muito bem vir a ser para muitas destas árvores, o último Outono antes das podas radicais cuja "época" se aproxima. Em Portugal, a beleza parece ser sempre um valor a prazo...

sábado, novembro 10, 2007

Notícias com (e sem) árvores

Imagem do site AquaCool

Notícia via Ondas 3: a imagem refere-se à destruição de árvores na Palestina, supostamente por motivos de segurança (?!), na estrada entre Jerusalém e Belém.

Ainda pelo Ondas 3: O Presidente da República, Cavaco Silva, e o Primeiro-ministro, José Sócrates, juntamente com os restantes chefes de Estado e de Governo que participam na XVII Cimeira Ibero-Americana em Santiago do Chile, plantaram duas árvores de espécies autóctones chilenas, num parque daquela cidade.
Ora aqui está um ideia "radical e de vanguarda": plantar árvores autóctones! Será que Cavaco Silva e José Sócrates estariam na disposição de plantar um sobreiro ou um azereiro, por exemplo, num jardim português?

Notícia do Diário XXI: através da iniciativa "Um Toyota, uma árvore", mais de 300 proprietários portugueses de um veículo híbrido daquela marca nipónica, participam hoje numa campanha de reflorestação em Vila de Rei.

Boas notícias da Associação Transumância e Natureza (com sede em Figueira de Castelo Rodrigo): campo de trabalho de reflorestação, entre 16 e 18 de Novembro, na micro-reserva da Faia Brava (mais informações aqui).

sexta-feira, novembro 09, 2007

Notas soltas de um país triste...

Escola do 1º Ciclo de Santo Amaro (Sousel) - imagem do blogue Entre Tejo e Odiana

Um país que odeia árvores em 3 flagrantes exemplos:

- nos blogues Entre Tejo e Odiana, Cores da Terra e Um Toque...

Será que algumas das autarquias visadas tem o desplante de participar nas habituais comemorações associadas ao Dia da Árvore?



quinta-feira, novembro 08, 2007

Diferenças...

Em relação à notícia que aqui publiquei, acerca do corte e poda radical de algumas árvores na cidade de Faro, quero assinalar que o Sr. vereador João Godinho Marques teve a delicadeza de responder ao e-mail que enviei para o gabinete de apoio ao presidente da edilidade.

Não vou tornar público o conteúdo do mesmo, venho apenas sublinhar que a dita resposta, pese embora não retire gravidade ao ocorrido, demonstra respeito e consideração para com os cidadãos.

É que ainda hoje estou à espera que o Sr. Carlos Pinto, presidente da Câmara Municipal da Covilhã, me responda a um e-mail que lhe enviei a 17 de Janeiro último...precisamente sobre podas! Diferenças...

quarta-feira, novembro 07, 2007

Thank you, Daniel...once again!

Sobreiro (Quercus suber L.) da Corte Grande (Monchique) - (atenção à "escala" proporcionada pela Sandra à direita do tronco na fotografia).

O sobreiro (Quercus suber L.) da Corte Grande (no concelho de Monchique) é o destaque de hoje no Botany Photo of the Day.

Agradeço também, mais uma vez, ao Sonhador que foi o primeiro a divulgar esta maravilha do nosso património natural.

P.S. - Apenas uma pequena "história caricata" acerca desta notícia. Devido a uma deficiente explicação da minha parte, o Daniel acabou por concluir que era eu o retratado na foto que lhe enviei, quando na realidade é o meu amigo Miguel Rodrigues (co-autor de muitas "caçadas a árvores" relatadas neste blogue).
Acrescentei este pequeno apontamento "mais ligeiro" apenas para que não criem ilusões estéticas...eu sou ainda mais feio!

Sobre a conservação da Natureza em Portugal...

Esgoto a céu aberto na Torre (Serra da Estrela), Reserva Biogenética do Conselho da Europa - Imagem do blogue Estrela no seu melhor - Novembro de 2007



O esgoto a céu aberto da Torre em Janeiro de 2007 (aqui). Dez meses depois está assim!...Isto é Portugal no século XXI! Podia fazer mais comentários mas já vou estando cansado...e envergonhado.

terça-feira, novembro 06, 2007

Um dia por terras de Idanha (retratado em árvores)

Uma velha amoreira - Idanha-a-Velha


Um dia será um gigante, assim o permitam... - Lódão-bastardo (Celtis australis L.) - Idanha-a-Velha


Oliveira n.º 1 (Olea europaea L.) - Idanha-a-Velha



Oliveira n.º 1 (Olea europaea L.) - Idanha-a-Velha




Oliveira n.º 2 (Olea europaea L.) - Idanha-a-Velha



Oliveira n.º 2 (Olea europaea L.) - Idanha-a-Velha




O reino das azinheiras.... - Vale do rio Erges (arredores de Salvaterra do Extremo)


Pilriteiro (Crataegus monogyna Jacq.) no Vale do rio Erges

sexta-feira, novembro 02, 2007

Sua majestade

Sobreiro (Quercus suber L.) - Corte Grande (Monchique)


Esta história merecia ser contada na primeira pessoa por Miguel Rodrigues. Um dia assim será...

Hoje tenho o privilégio de ser o seu mensageiro e de partilhar com o mundo este prodígio da Natureza: o magnífico sobreiro (Quercus suber L.) da Corte Grande em Monchique.

Sobreiro (Quercus suber L.) - Corte Grande (Monchique)

Tudo neste sobreiro é excessivo!

Invejo os que sob a sua sombra já descansaram. Se querem um sobreiro cuja grandiosidade sirva de modelo a todos os demais, não procurem mais. Sob a sua copa nos devemos penitenciar pela nossa insignificância temporal. Tudo nele é excessivo, até as palavras que o descrevem.

Sobreiro (Quercus suber L.) - Corte Grande (Monchique)

Sua majestade em números (que até fizeram o experimentado "caçador de árvores" Miguel Rodrigues duvidar do bom funcionamento do blume leiss*):

Perímetro à altura do peito (P.A.P.) = 5,91 m
Altura = 19 m
Maior diâmetro da copa = 37 m

* aparelho com o qual medimos a altura das árvores.

Sobreiro (Quercus suber L.) - Corte Grande (Monchique)

O mérito desta reportagem é de Miguel Rodrigues e da Sandra (uma estreia em grande estilo na arte de caçar árvores!)

P.S. - Este sobreiro foi inicialmente divulgado através do blogue Mons Cicus, cujo autor tem feito um trabalho notável na divulgação de muitas das árvores monumentais de Monchique, algumas das quais ainda por classificar (como é o caso deste exemplar).