Imagem do jornal "Trevim"Se assim é, ou seja, se é efectivamente inevitável, teria a CML que, no mínimo, solicitar à Metro Mondego que fizesse prova do que afirma, nomeadamente através da publicitação de estudos devidamente fundamentados, do ponto de vista técnico, que descartassem qualquer hipótese de salvar ás árvores.
Por outro lado, resta ainda a questão, na eventualidade do abate avançar, de saber que medidas compensatórias exigiu a CML à Metro Mondego. Ou será que não exigiu nenhuma?
Segue o extracto da notícia enviado pelo citado leitor:
"“Sem alternativa”. Foi esta a explicação dada pelo executivo lousanense na reunião de Câmara, realizada no dia 6, para autorizar o abate de 35 plátanos na rua António José de Almeida. Uma medida que manteve o tom de unanimidade em toda a sessão pública de setembro
A autarquia foi informada pela Metro Mondego da necessidade de abate dos plátanos entre a estação da Lousã e a futura estação do Casal do Espírito Santo, no âmbito da execução da obra para implementação do futuro Sistema de Mobilidade do Mondego. “É fundamental o abate para o prosseguimento das obras”, lê-se na missiva dirigida à Câmara.
Embora o plátano não seja uma espécie protegida, a medida obriga a uma aprovação da autarquia que, sem margem de manobra, acabou por deliberar unanimemente o abate das árvores, algumas de grande porte. Fernando Carvalho leu o documento aos vereadores e no final deixou escapar que neste contexto a autarquia pouco ou nada pode fazer, para não travar as obras. Por seu lado, o vereador da Floresta, Ricardo Fernandes, sugeriu que no final das obras possa ser plantada uma outra espécie de árvore no local.
Ainda de acordo com a mesma carta, a sociedade responsável pelo projeto só agora detetou que as árvores dificultam o alargamento do canal do metro, impedindo assim a continuidade das obras naquele traçado.
Recorde-se que, em Coimbra, um grupo de cidadãos interpôs uma providência cautelar para impedir
o abate de plátanos na zona central da avenida Emídio Navarro, onde está prevista a passagem do traçado do Metro Mondego. Embora, neste caso, o abate das árvores tenha sido iniciativa da Câmara de Coimbra, alegando que as mesmas estavam a ser atacadas por um fungo."
Ao leitor Carlos Sêco agradeço o envio desta notícia e apelo a que insista, junto da CML, na busca de respostas às dúvidas levantadas por esta intenção que, pela informação disponível, me parece estar longe de estar totalmente esclarecida.















"Há aqui duas coisas que me causam perturbação, a primeira ao nível das intenções por detrás deste tipo de projectos, ditos de “requalificação”, e a segunda, obviamente, ao nível do modo como as obras são implementadas no terreno.
Desde logo, incomoda-me, e não consigo compreender, juro que não consigo, esta necessidade, permanente e premente, de requalificar tudo o que é jardim, por esse país fora. Parece que a um jardim, para atrair as pessoas, já não basta ter árvores e sombras. Isso é passado…Agora, ao que parece, os jardins têm que ser modernos, o que implica a construção de uma série de equipamentos, tudo à conta da amputação do espaço para o verde.
Outra coisa que roça o surreal é esta queixa de um jardim ter excesso de ensombramento! Mas que diabo é o excesso de ensombramento num jardim?! Não é para dar sombra que se plantam as árvores? Não será esse o objectivo de um parque, especialmente numa cidade com clima mediterrânico, com centenas de horas de sol por ano?
Eu diria que o problema das ruas e dos jardins em Portugal é precisamente o oposto, ou seja, a insuficiência de sombras derivada do hábito de estarmos permanentemente a rolar as árvores ornamentais. Fruto dessas práticas selvagens, as nossas árvores urbanas mais não têm do que copas raquíticas, nunca chegando a atingir o seu desígnio: maravilharem-nos com o perímetro de frescura das suas sombras.
E o que acontece quando, num parque, estas escapam a tão triste fim e chegam ao seu estado adulto, com a forma que a natureza lhes deu? Malvadas que dão muita sombra e é preciso podá-las…ou resolver logo o problema pela base e cortá-las! Excesso de ensombramento?! Não consigo parar de pensar no absurdo deste argumento.
De repente, lembro-me dos jardins da Irlanda. Num país com escasso número de dias de sol, onde um dia de Agosto de céu encoberto e 20ºC é um excelente dia de Verão, e penso como seria ridicularizada a ideia de se querer cortar as árvores dos jardins por excesso de ensombramento.
Lembro-me de um magnífico jardim no centro de Dublin, com árvores enormes, com pessoas almoçando sobre os relvados, aproveitando a escassa luz de um dia de verão irlandês, e nada de minigolfes ou de parques de desportos radicais a quebrar a paz e o sossego daquela pausa vespertina. Que também por lá haverá parques de desportos radicais ou minigolfes, não duvido, mas não às custas de amputar espaços verdes.
O único equipamento extravagante que esse parque tinha era um coreto, onde uma banda tocava perante dezenas de pessoas que faziam tempo, após o almoço, para regressarem ao trabalho e perante turistas, como eu, que se questionavam porque tal imagem não seria possível num jardim português.
Existe uma qualquer fobia que afasta uma maioria de portugueses dos nossos parques, um qualquer incómodo no contacto com o verde da natureza. É ridículo pensar-se que as pessoas passarão a frequentar um parque porque se cimentam os caminhos ou que se sentirão mais seguras com iluminação cénica, por debaixo das copas das árvores.
A segurança cria-se com guardas que zelem por quem frequenta esses jardins e que impeça actos de vandalismo; os hábitos de visitar e usufruir de um parque não são fáceis de criar, mas podem-se organizar eventos culturais, por exemplo, que criem uma rotina de visita a esses espaços. Ou a instalação de circuitos de manutenção, de baixo impacto visual, que fomentem a prática desportiva.
E depois há todos os outros portugueses. Aquela minoria, à qual pertenço, e à qual bastam as árvores num jardim; e a maioria, a qual nunca irá a um jardim a menos que aí estacionem um centro comercial!
Mas há ainda o segundo lado desta questão, ou seja, o modo como as obras estão a ser feitas. Acaso foi estudado o efeito que a abertura destas valas terá na saúde e, logo, na segurança, destas árvores? Foi feito algum estudo sobre esta matéria? Se sim, qual o nome da entidade que o executou e quais as suas conclusões? Foram propostas medidas de minimização para o impacto das mesmas nas árvores e na paisagem?
Claro que haverá sempre o argumento que as obras tinham que ser feitas assim e que não podiam ser feitas de outra maneira. Falemos então de custos/benefícios.
Será que os pretensos efeitos benéficos que esta intervenção trará ao Parque de Loulé compensarão os danos causados? Se sim, dêem-me um exemplo, em Portugal ou no estrangeiro, um único exemplo, de uma intervenção em que o corte de árvores ou a construção de minigolfes, tenham tornado um parque mais seguro e mais visitado.
Acaso alguém imagina um cenário de guerra como este, no nova-iorquino Central Park? Alguém imagina os nova-iorquinos a aplaudirem o corte de árvores e a verem o seu parque esventrado por maquinaria pesada?
O Parque de Loulé, como a maioria dos nossos jardins mais antigos, precisam de duas coisas muito simples: jardineiros, que os cuidem e evitem a imagem de desleixo causada pelo crescimento de matos e infestantes, bem como a acumulação de lixo, e de vigilantes, que os tornem em locais mais seguros, de dia ou de noite, para quem os frequenta.
Toda a modernice que estas ditas “requalificações” encerram não é mais do que saloiice pegada de quem não conhece os grandes jardins e parques do mundo.
Excesso de ensombramento?! Francamente…"