quinta-feira, março 19, 2009

Monstros urbanos

Seguem-se imagens de uma cidade portuguesa. Um "Museu dos Horrores", um "Tratado do Disparate" no que concerne à manutenção das árvores ornamentais!

São 13 fotos, mas poderiam ser o dobro ou o triplo...






























A cidade é Braga. Na realidade, imagens como estas poderiam ser obtidas na maioria, para não dizer na totalidade, dos concelhos do nosso país.

É igualmente verdade que este problema da falta de qualidade na manutenção das árvores em espaço urbano está longe de ser um exclusivo do nosso país. Basta atravessar a fronteira para verificar que em Espanha, por exemplo, o panorama não é mais animador. Mas com o mal dos outros...

Mas há um motivo concreto pelo qual mencionei o nome da cidade onde captei estas imagens. Braga não é uma cidade qualquer, é uma das maiores urbes do nosso país.

Uma cidade não deve ser grande apenas no número de habitantes ou na dimensão da sua malha urbana. Uma urbe da dimensão de Braga deve ter uma massa crítica actuante, capaz de exercer uma vigilância activa sobre as políticas municipais que influenciam, directa ou indirectamente, a qualidade de vida na cidade.

As elites não devem servir apenas para gerar e sustentar opções culturais mais ou menos alternativas. Cultura não é apenas música ou cinema independentes (coisas que também me agradam muito). Cultura é também qualidade de vida e, para tal, é imprescindível uma prática que proteja e saiba cuidar dos espaços verdes e das árvores das cidades.

É em cidades como Braga, Coimbra, Porto ou Lisboa, por exemplo, que a mudança deve começar. É nas maiores cidades, com maior vivência cultural, com as maiores academias e universidades, e com os mais influentes órgãos de comunicação social, que devem surgir as elites que se revoltem contra a forma como a árvore é desprezada no nosso país.
E que, em consequência, exijam do poder político local outra atitude face à árvore no espaço urbano. Este só mudará a sua actuação se sentir essa pressão da opinião pública no sentido de uma efectiva mudança na forma como se planeia a arborização das ruas e, posteriormente, na forma como é feita a respectiva manutenção.


Porque a mudança só é possível com o conhecimento, é nas cidades onde este conhecimento está mais acessível, nomeadamente através das universidades e dos técnicos que aí existem, que ela deverá começar.

É altura da manutenção das árvores ser competência exclusiva de arboricultores certificados. Em causa estão não apenas questões estéticas mas a segurança de todos nós e dos nossos bens, pois estas intervenções desastrosas debilitam as árvores pondo em risco, desta forma, a segurança de todos os cidadãos.

Através destas imagens compreende-se melhor porque " (...) em meio urbano, as árvores ficam particularmente frágeis raramente ultrapassando os 60 a 80 anos de vida".

Penso que todos concordaremos que está na altura de por um ponto final a estes "monstros urbanos". Tenhamos um pouco mais de amor ao nosso país, às nossas cidades e às árvores que nelas tentam (sobre)viver.


segunda-feira, março 16, 2009

De (e para) uma amiga


Dragoeiros (Dracaena draco L.) - Madeira [Fotografias de Natividade Lemos]


Espelho


E eis que do tronco
rompem-se os brotos:
um verde mais novo da relva
que o coração acalma:
o tronco parecia já morto,
vergado no barranco.

E tudo me sabe a milagre;
e eu sou aquela água de nuvens
que hoje reflecte nas poças
mais azul seu pedaço de céu,
aquele verde que se racha da casca
e que tampouco ontem à noite existia.


Salvatore Quasimodo



quinta-feira, março 12, 2009

Árvores monumentais da Madeira

Imagens do livro "Árvores Monumentais e Emblemáticas da Madeira", editado pela Direcção Regional de Florestas da Madeira - Disponível online na página da Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais.



Na Região Autónoma da Madeira o decreto que protege os recursos florestais é o Decreto Legislativo Regional n.º 35/2008/M, em vigor desde 14 de Agosto de 2008.


Em relação a este texto sobre as árvores da Madeira, e ao texto anterior sobre as árvores monumentais dos Açores, gostaria de acrescentar que, não sendo jurista, desconheço o âmbito de aplicação de certas leis da nossa República.

Deste modo, para além dos Decretos Legislativos Regionais referidos nestes dois textos, desconheço se o Decreto-Lei n.º 28468/38, de 15 de Fevereiro, relativo à classificação de árvores monumentais, se aplicará ao nível das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores.

terça-feira, março 10, 2009

Árvores monumentais dos Açores

Araucárias monumentais - Madalena do Pico (Açores) - Fotografia de Vera Jorge


No continente português a classificação de árvores como sendo de interesse público é determinada pelo Decreto-Lei n.º 28468/38, de 15 de Fevereiro.


Na Região Autónoma dos Açores o diploma que regula a classificação e conservação de bens de interesse cultural é o Decreto Legislativo Regional n.º 29/2004/A, de 24 de Agosto.

O património classificado dos Açores está dividido em duas categorias distintas: Imóveis de Interesse Público e Imóveis de Interesse Municipal. O referido Decreto Legislativo Regional permite que possam também ser classificadas, em cada uma das classes anteriormente referidas, as árvores que possuam relevante interesse histórico ou grande relevância cultural.

A lista do património classificado nos Açores está disponível nesta página da Wikipédia. Na mesma é possível verificar a existência de diversos exemplares arbóreos classificados, nomeadamente no concelho da Horta (Faial).

domingo, março 08, 2009

Prepotência e bom senso

Uma notícia do "Jornal de Notícias" que não resisto a partilhar...


"A Câmara de Guimarães vai instaurar uma contra-ordenação à Junta de Freguesia de Ronfe por corte indevido de árvores.

Em causa estão quatro árvores que a Junta decidiu abater por alegadamente estarem a danificar passeios. "Uma asneira crassa" diz o autarca António Magalhães.

A Junta de Freguesia de Ronfe (uma das nove vilas do concelho) decidiu abater quatro árvores que estavam junto ao cemitério local. Segundo o autarca de Ronfe, Daniel Rodrigues, as raízes das árvores estavam a destruir os passeios junto ao cemitério. E por isso, decidiu abatê-las.

A Polícia Municipal de Guimarães esteve no local. O autarca Daniel Rodrigues diz que tentou contactar com o presidente da Câmara mas que tal não foi possível, tendo então decidido avançar com o corte, assumindo a responsabilidade numa informação escrita enviada à Câmara Municipal de Guimarães.

"Fui ao local e não gostei do que vi. Estamos a falar de árvores que tinham mais de 20 anos, umas foram cortadas rentes, o que constitui uma asneira crassa, porque demora anos a repor; outras foram cortadas de maneira pouco ortodoxa", disse o autarca, no final da última reunião camarária.

O abate ou poda de árvores é da competência da Câmara e não pode ser decidida de forma ligeira. "Não se pode fazer mal à Natureza que já é muito castigada".


Por uma vez, gostava de dar o benefício da dúvida ao autarca de Guimarães e elogiar mais o seu civismo e consciência ambiental, do que criticar a prepotência de um Presidente de Junta que, sem consultar qualquer técnico, decidiu abater várias árvores com mais de 20 anos.


sábado, março 07, 2009

Projecto Montado



"A gestão tradicional dos montados permitia combinar dois objectivos importantes: produção agrícola e conservação. No entanto, estes ecossistemas têm vindo a sofrer alterações na sua forma de gestão, como consequência de alterações tecnológicas, económicas e das políticas agrícolas comunitárias. Estas alterações na gestão dos montados têm conduzido à degradação física e microbiológica dos solos (...) Apesar de serem ecossistemas agro-silvo pastoris sustentados, os montados foram recentemente considerados sistemas ameaçados, quer pela intensificação, quer pela extensificação do uso do solo, comprometendo os objectivos mais importantes da gestão do terreno: a produção e a conservação." - Projecto Montado (Universidade de Coimbra).

sexta-feira, março 06, 2009

O cedro de Aldeia do Bispo

Cedro (Cedrus sp.) - Aldeia do Bispo (Sabugal), fotografia de Nelson Lima

Uma árvore magnífica, apesar de aparentar ter a flecha danificada, para descobrir numa nova incursão nos tesouros naturais do concelho do Sabugal.

quinta-feira, março 05, 2009

O assassinato de uma ribeira



Como sabemos que um país bateu no fundo em termos de legalidade democrática? Quando uma câmara municipal, neste caso a de Albufeira, se sente com à vontade suficiente para iniciar uma obra para a qual não tinha licenciamento.

Como pode ser visto pelas imagens que acompanham este texto, em poucos dias a Câmara Municipal de Albufeira arrasou dezenas de árvores nas margens de uma ribeira que atravessa a cidade e, após ter destruído toda a vegetação das margens, começou a encanar o dito curso de água.





A obra foi, entretanto, embargada pela Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Algarve que, compreensivelmente, e segundo a edição de ontem do "Público", exige que seja tornado público o estudo (caso este exista!) que demonstre que estas obras não terão impactos no aumento do risco de cheias no centro antigo de Albufeira (a jusante deste troço da ribeira).

Uma das justificações do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Albufeira para toda a destruição, visível nas imagens, é particularmente tocante: "A água da ribeira não tinha qualidade e a linha de água estava transformada numa lixeira". Que é como quem diz, estes senhores até nos estão a fazer um favor, "requalificando ambientalmente" esta ribeira.

Fica também patente uma brilhante solução para todo o lixo que se acumula nas ribeiras deste país: encana-se a água! Quando todas as ribeiras deste país estiverem encanadas, acabam-se as linhas de água poluídas. Como é que ninguém se lembrou antes desta solução miraculosa?

E as ribeiras encanadas responsáveis pelo agravamento de tantas cheias em zonas urbanas do nosso país? Pormenores....Viva o progresso!




Claro que a Sr.ª presidente da ARH chega a admitir que a Câmara de Albufeira pode ter que "repor a situação". Coisa que eu pagava para ver, sobretudo a reposição da copa das dezenas de árvores decepadas e destruídas.


No fundo, todos sabemos como estes casos acabam e como a "política de terra queimada" continua a compensar no nosso país. Provavelmente, e com o previsível levantamento do embargo, a Câmara de Albufeira até poderá vir a ganhar tempo com este avançar das obras, por comparação com o que teria sucedido caso tivesse seguido todos os preceitos da lei.


Por estes dias, e a propósito do assassinato de Nino Vieira, oiço falar que a Guiné-Bissau é um Estado falhado. Com todas as diferenças, entre ambos os países e as situações descritas, apetece-me perguntar o que é Portugal?

Um país onde vigora a mais completa das impunidades, onde as Câmaras Municipais, órgãos do Estado que deveriam fazer cumprir as leis da República, cometem os maiores atropelos à legalidade, é o quê?


P. S. - Num país dito sério, por oposição a um Estado falhado, um presidente de Câmara que, de forma consciente, permitisse o avanço de obras sem licenciamento seria exonerado de forma célere; digamos que seria uma exoneração ao estilo "simplex"!

quarta-feira, março 04, 2009

Proposto novo regime de protecção para património verde de Lisboa

Foi proposto, pelo Partido Comunista, um novo regulamento municipal para protecção das árvores e arbustos da cidade de Lisboa. Ler notícia no Público.


ADENDA: Esta proposta do Partido Comunista vale o que vale... Apesar de ser uma proposta interessante, encerra a contradição típica dos partidos políticos portugueses, ou seja, defendem na oposição o que não cumprem no poder. Veja-se o caso dos sobreiros de Setúbal, autarquia comunista (1330 sobreiros propostos para abate a troco de mais mega-urbanizações, num país com milhares de casas novas para venda, para mais um centro comercial e, cereja em cima do bolo, mais um estádio de futebol).

No entanto, regresso a este assunto das árvores de Lisboa, para analisar o contraste entre a forma como olhamos, no nosso país, para as árvores antigas e a forma como estas são respeitadas e acarinhadas noutros países.

Meditem sobre o que está escrito neste folheto da Câmara Municipal de Lisboa sobre as árvores, em particular esta passagem: "A maior parte das espécies ornamentais vive menos de 100 anos. Na realidade, em meio urbano, as árvores ficam particularmente frágeis raramente ultrapassando os 60 a 80 anos de vida". Agora comparem com este texto sobre o Central Park, de Nova Iorque, e tirem as vossas próprias conclusões.

Novidades na varanda






Três azevinhos e uma laranjeira (para superar algumas desilusões na minha varanda).

terça-feira, março 03, 2009

Descobrir novos caminhos (desenhando)

No próximo dia 21 de Março, nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, festeja-se o equinócio da Primavera.

É a "Festa Desenho e Paisagem", dirigida a todas as idades e com entrada livre.

Para mais informações visitem a página da Gulbenkian ou da Associação Traços na Paisagem.

sábado, fevereiro 28, 2009

Reflexões sobre a natureza da vida

"A origem do mundo" de Gustave Courbet (Musée D' Orsay - Paris) - Fotografia de lapinot (retirada do blogue Avenida Central)

Árvore descaracterizada por poda radical (Braga, Inverno de 2008)


Nunca me deixará de surpreender como a celebração da vida incomoda muito mais gente do que a supressão e mutilação dessa mesma vida.



P. S. - Foi em Braga mas, sejamos honestos, poderia ter sido noutro sítio qualquer...


sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Publicidade enganosa (Actualização)

Acerca do texto publicado na passada segunda feira, sob o título "Publicidade enganosa", queria proceder à seguinte actualização:

Recebi um amável e-mail de Alexandrina Pipa, coordenadora do Projecto "Green Cork" da Quercus, explicando-me que irão averiguar a situação, caso a caso, procedendo à remoção dos sobreiros que estejam secos e à plantação, nos jardins do respectivo centro comercial, dos sobreiros que se encontrem sãos. Obrigado.

De novo, a "época amarela"









Mais do que o passado, deve-nos interessar o futuro. Mais do saber como chegámos aqui, será decisivo compreender como poderemos sair deste estado de coisas. Mas claro, aprendendo com as lições do passado.

E será que no nosso país, em termos de invasoras, aprendemos alguma coisa com o passado?

Claro que é interessante analisar a acção do Estado em termos de apoio à investigação nesta área e no combate efectivo à expansão de espécies invasoras/reconversão de zonas invadidas.

Apesar dos aspectos evocados no parágrafo anterior, considero que todas estas medidas serão sempre desconexas se não alterarmos, de forma profunda, a nossa ocupação do território.

Pelo menos no caso de muitas espécies invasoras, como é o caso da mimosa (Acacia dealbata Link), o avanço na área ocupada tem sido favorecido pelo abandono da agricultura e da exploração florestal.
É esta forma cada vez mais desadequada como ocupamos o nosso território e o exploramos, em termos agrícolas e florestais, que favorece um cada vez maior desleixo na paisagem, visível no avanço imparável das espécies invasoras.

Também o desleixo que votamos à limpeza das bermas faz destes espaços, onde a luz é um bem abundante, territórios preferenciais de avanço para muitas espécies que encontram neste factor, a quantidade de luz, um factor preferencial em termos de concorrência com as espécies nativas. Tal é o caso da referida mimosa, aquela que será, provavelmente, a mais agressiva das invasoras presentes no território continental.

[Observe-se nas imagens como as mimosas se concentram na berma das estradas (primeira imagem) e nas orlas de pinhais abandonados, favorecidas da abundância de luz].

No entanto, continuo a insistir que a primeira batalha a ganhar é a da informação. As pessoas que frequentem este blogue e outros de temática semelhante, fazem parte de um microcosmos que, por vezes, não se apercebe da pouca informação que existe sobre este assunto na sociedade portuguesa.

E isto é profundamente dramático, numa sociedade onde qualquer pessoa pode comprar sementes pela internet, as quais chegam a casa dessas pessoas em envelopes que, por certo, não levantarão as menores suspeitas. Acrescem as sementes e as plantas que entram, todos os dias, em território nacional pelas diferentes fronteiras do país.

Qualquer pessoa pode, de forma inconsciente, contribuir para agravar este problema. E não preciso de dar exemplos relativos a espécies que ainda não estão presentes no nosso país e que poderiam revelar-se como invasoras.
Mesmo em relação às espécies que estão referidas na legislação nacional como sendo invasoras, que fracção da nossa população tem conhecimento das mesmas? Num país onde as mimosas aparecem em folhetos turísticos e continuam a inspirar raids fotográficos ou, para dar um exemplo insular, as hortênsias são a imagem de marca dos Açores, muito há ainda a fazer em termos de disseminar a informação.

Claro que a informação não elimina por si só este problema. No entanto, a partir do momento em que as pessoas estejam informadas, diminuiremos drasticamente o número daqueles que continuam a propagá-las por simples ignorância do problema.

Restarão apenas aqueles que o fazem por negligência ou por fins económicos...Ora eu quero acreditar que estes serão em muito menor número do que aqueles que o fazem por mero desconhecimento da situação.

Sem vencermos esta primeira batalha da disseminação da informação e do conhecimento, nunca venceremos as seguintes que serão bem mais árduas e demoradas de vencer.


Para saber mais sobre este problema:

- Plantas Invasoras em Portugal.
- DAISIE (Delivering Alien Invasive Species Inventories for Europe) (Nota: O projecto europeu DAISIE não se limita às questões relacionadas com a Botânica).


Para conhecer projectos nacionais de luta contra as plantas invasoras/reconversão de zonas invadidas:

- Recuperação ecológica do Cabeço Santo.
- Recuperação do património natural na Serra do Açor (o controlo da Acacia dealbata Link).

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

O sindicato das árvores

Cartoon de El Roto - Imagem retirada do blogue "La memoria del bosque"

"As árvores devem ser cortadas quando são novas porque, caso contrário, crescem e tornam-se reivindicativas".

Como dizia o meu amigo Serafim, no outro dia, o que faz falta é um "sindicato das árvores" para as defender...

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Night and day







(...) Night and day, you are the one
Only you beneath the moon or under the sun
Whether near to me, or far
It's no matter darling where you are
I think of you...

Cole Porter



Será possível, a um homem, amar uma montanha como quem ama uma mulher?



(Nota: a primeira fotografia é de minha autoria e foi tirada no dia 24 de Janeiro; a segunda e espectacular imagem foi tirada, por Pedro Seixo Rodrigues, na noite de 9 de Fevereiro. A descoberta deste magnífico trabalho devo-a à leitura do Cântaro Zangado).

terça-feira, fevereiro 24, 2009

O assassinato de um gigante

Fotografia de Apatxe (Panoramio)

A imagem anterior ilustra a Fayona de Eiros, uma faia (Fagus sylvatica L.) monumental que se situava na povoação de Eiros (Astúrias), no máximo da sua grandiosidade de mais de dois séculos de idade.

E a imagem seguinte, do passado mês de Janeiro, mostra este mesmo gigante tombado perante o olhar incrédulo de várias pessoas...

Fotografia "La Crónica Verde"

Apressaram-se os que culparam a força do vento e a desproporção das suas dimensões. O que ninguém soube dizer foi porque ventos mais fortes, no passado, se revelaram incapazes de a derrubar...Ou porque a referida desproporção não afectou a sua solidez durante tantas décadas. Numa única pergunta: porquê agora?

A verdade é que um reputado especialista em árvores, José Plumed, descobrira em 2005 que a mesma estava infectada por um fungo cujo alastrar, muito provavelmente, fora acelerado pela abertura de um caminho junto à mesma, provocando uma amputação de parte do sistema radicular da árvore. (Notícia completa: La Crónica Verde)

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Publicidade enganosa

Como é evidente, nada me move contra o projecto de reciclagem Green Cork (uma iniciativa da Quercus).

O problema é que em certos centros comerciais, para chamar a atenção para este projecto, foram colocados sobreiros dentro de vasos. Até aqui nada de especial, excepto...Excepto pelo facto de ter sido alertado, pela segunda vez, para a morte destes sobreiros envasados (desta vez, segundo denúncia de um leitor deste blogue, ocorreu no Picoas Plaza).

Esta situação, seja ela responsabilidade da Quercus ou da administração dos centros comerciais, em nada favorece a imagem desta campanha. Também me parece que não se pode desculpabilizar esta situação apenas porque estes sobreiros provêm de viveiros, pois muito mal estaríamos se alguém os tivesse ido buscar a uma qualquer mata!

O que não faz sentido é uma campanha de reciclagem de rolhas de cortiça, com cujos fundos se pretende financiar campanhas de reflorestação com sobreiros, ser publicitada com árvores que são deixadas morrer pela mais pura e completa das negligências.


P.S. - Como forma de sossegar alguns espíritos mais sensíveis à crítica...Sim, esta situação foi comunicada, via correio electrónico, para: quercus(at)quercus.pt e lisboa(at)quercus.pt

ADENDA: Recebi um amável e-mail de Alexandrina Pipa, coordenadora do Projecto "Green Cork" da Quercus, explicando-me que irão averiguar a situação, caso a caso, procedendo à remoção dos sobreiros que estejam secos e à plantação, nos jardins do respectivo centro comercial, dos sobreiros que se encontrarem sãos. Obrigado.

As cidades transformadas em árvores


Rome - Lee Jang Sub (via Territorius)

domingo, fevereiro 22, 2009

Poda radical é crime!

Imagem retirado do blogue "O ambiente na Figueira da Foz"

Tenho a sensação que esta iniciativa da Prefeitura de São Paulo é impossível de replicar nos nossos municípios e por um motivo bem simples...



É que por cá, as autarquias sancionam, com o dinheiro dos contribuintes, a destruição do património arbóreo situado na via pública.


sábado, fevereiro 21, 2009

Uma floresta dentro de uma garrafa



Amanhã, dia 22 de Fevereiro, às 11H 55 min., a SIC irá transmitir um documentário intitulado “Cork – Forest in a Bottle”, produzido pela BBC. (Nota: Este documentário foi transmitido pela BBC Two em Dezembro de 2008 e pela BBC One em Janeiro deste ano).

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

A arte de negar as evidências

Fotografia de Nelson Lima


Os vereadores da oposição na Câmara Municipal da Figueira da Foz decidiram convocar uma conferência de imprensa, com a presença de um dos mais reputados técnicos de arboricultura portugueses, para questionar a autarquia local sobre a qualidade da manutenção das árvores ornamentais na cidade.

O vereador do Ambiente da autarquia, José Elísio Oliveira, afirmou, em resposta, ao Jornal de Notícias: "Temos técnicos especialistas na área, a empresa com a qual trabalhamos também os tem. E não temos razão nenhuma para por em causa a competência dos técnicos e duvidar da sua competência".

A fotografia anterior ilustra bem a "qualidade" das intervenções efectuadas nas árvores da Figueira da Foz, bem como as demais imagens que acompanham um texto que publiquei em Abril último.


P.S. - No passado mês de Maio tive ocasião de passar na Figueira da Foz e só lamento não me ter feito acompanhar de uma máquina fotográfica, de modo a poder documentar o mostruário* de horrores perpetrado contra as árvores desta cidade por quem, segundo o dito vereador, tanto percebe de podas.

* A palavra "monstruário" talvez fosse mais adequada...


quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Sobre o escandaloso abate de sobreiros em Setúbal


Sobre o escandaloso abate de sobreiros em Setúbal, situação sobre a qual já me tinha pronunciado em Agosto passado, gostava de convidar os leitores da "Sombra Verde" a visitar o blogue "Ambio" e acompanhar a troca de opiniões sobre esta matéria.

sábado, fevereiro 14, 2009

As eleitas

Segue-se, geograficamente ordenado de Sul para Norte, o conjunto de árvores que eu e o Miguel propusemos à Autoridade Florestal Nacional, na passada semana, para classificação como árvores de interesse público:



A paineira de Odemira.



Uma das oliveiras mais grossas de Portugal* - Serpa


* De acordo com a comparação feita com os dados conhecidos de oliveiras classificadas como árvores de interesse público. Em breve, será feito um texto específico sobre esta oliveira, incluindo as respectivas dimensões, no Árvores Monumentais do Algarve e Baixo Alentejo.




Sobreiro situado junto à estrada N258 entre o Alvito e a Vidigueira*.


* Brevemente, mais informações sobre este sobreiro no Árvores Monumentais do Algarve e Baixo Alentejo.





A oliveira dos namorados de Alvito.




As pseudotsugas de Manteigas.




A araucária de Viana do Castelo (supostamente, a mais alta árvore de Natal natural da Europa).




O sobreiro de Taião (Valença)


Os critérios para a selecção deste conjunto de árvores prenderam-se, para além das características de cada árvore ou conjunto de árvores, com o facto de se situarem em terrenos públicos ou no perímetro de instituições públicas (como é caso da araucária de Viana do Castelo).

Temos muitas outras árvores notáveis em "lista de espera" mas, como se situam em terrenos particulares, teremos que conferenciar com cada um dos respectivos proprietários, antes de as propor para classificação.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

As pseudotsugas de Manteigas

No passado mês de Julho, eu e o Miguel Rodrigues passámos 3 dias a fotografar e a medir árvores na zona da Serra da Estrela.

Visitámos árvores extraordinárias, das maiores e mais grossas do nosso país, numa jornada memorável.
E se dessa jornada pouco ou nada tenho falado, nem partilhado as respectivas imagens, é porque as estou a guardar para um novo projecto que espero possa ver a luz do dia muito em breve.

No entanto, decidi abrir uma excepção para um fabuloso conjunto de pseudotsugas [Pseudotsuga menziesii (Mirb.) Franco] situado na encosta da Pousada de S. Lourenço, a poucos quilómetros de Manteigas.

O justificativo para a abertura desta excepção é bem simples... Estas árvores fazem parte dum conjunto de exemplares que eu e o Miguel decidimos propor para classificação como árvores de interesse público (e sobre o qual darei mais pormenores em breve).

Mas voltemos às pseudotsugas, com as palavras que Ernesto Goes lhes dedicou no "Árvores Monumentais de Portugal": "Na Serra da Estrela, próximo da Pousada de S. Lourenço a uma altitude de 1 400 metros, foi plantado em 1905 um pequeno povoamento desta espécie, em que as árvores têm presentemente 0,80 a 1,05 metros de D.A.P. e cerca de 50 metros de altura. Trata-se do povoamento mais espectacular do país, que tem sido admirado mesmo por técnicos americanos, que afirmam não existir no seu país, exemplares maiores com aquela idade".

[Pseudotsuga menziesii (Mirb.) Franco] - Serra da Estrela (junto da Pousada de S. Lourenço, Manteigas)

Trata-se de um conjunto notável de árvores, conhecido de todos os que percorrem a N232 entre Manteigas e as Penhas Douradas, junto da Pousada de S. Lourenço. A densidade deste povoamento e a altura das árvores provocam um permanente ensombramento na zona da estrada que atravessa esta zona florestal.



Com o instrumento de medição de altura que dispomos, um blume leiss, e dada a localização das árvores e a proximidade entre elas, foi-nos impossível determinar a altura destas árvores e, em particular, dos exemplares que aparentam ser os mais altos.

[Pseudotsuga menziesii (Mirb.) Franco] - Serra da Estrela (junto da Pousada de S. Lourenço, Manteigas)

Apesar do descrito, e fazendo uso de algumas "engenhocas", calculámos a altura de algumas pseudotsugas, junto à estrada, nos 30 a 40 metros.
No entanto, estes exemplares não aparentam ser os mais altos, pelo que haverá exemplares perto, ou mesmo acima, dos 50 metros (tal como referido no "Árvores Monumentais de Portugal"); a este propósito, é necessário fazer uma pequena correcção às palavras de Ernesto Goes, uma vez que a maioria destas pseudotsugas se situa entre os 1 100 e os 1 200 metros de altitude, e não a 1 400 metros tal como referido no citado livro.

É de lamentar, dada a importância deste povoamento, que não existam dados oficiais sobre a altura destas árvores.
De acordo com o "Árvores Monumentais de Portugal", a pseudotsuga mais alta do país deverá ser um exemplar que se situa na Mata do Buçaco, junto da casa do guarda da Porta da Lapa, que em 1984, à altura da edição deste livro, teria 45 metros de altura; apesar de não ter fotografias da mesma, posso garantir que se trata de uma árvore colossal (no entanto, não me admiraria que existisse algum exemplar neste povoamento de Manteigas com altura superior).


De recordar que, no Noroeste da América do Norte, no seu habitat original, as pseudotsugas podem ultrapassar os 100 metros de altura [apenas superadas pelas sequóias da espécie Sequoia sempervirens (D. Don) Endl.].


P.S. - A referência a esta mata não ficaria completa sem mencionar uma última surpresa, parcialmente visível na fotografia que se segue...



No lado esquerdo da fotografia, aparece um esguio mas "gigantesco" carvalho-negral (Quercus pyrenaica Willd.).
Rodeado de enormes pseudotsugas, este carvalho viu-se obrigado a crescer em altura, competindo pela escassa luminosidade existente no seio desta mata.

Não será o mais bonito, grosso ou volumoso carvalho-negral do nosso país mas será, certamente, o mais alto de Portugal.