quinta-feira, março 05, 2009

O assassinato de uma ribeira



Como sabemos que um país bateu no fundo em termos de legalidade democrática? Quando uma câmara municipal, neste caso a de Albufeira, se sente com à vontade suficiente para iniciar uma obra para a qual não tinha licenciamento.

Como pode ser visto pelas imagens que acompanham este texto, em poucos dias a Câmara Municipal de Albufeira arrasou dezenas de árvores nas margens de uma ribeira que atravessa a cidade e, após ter destruído toda a vegetação das margens, começou a encanar o dito curso de água.





A obra foi, entretanto, embargada pela Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Algarve que, compreensivelmente, e segundo a edição de ontem do "Público", exige que seja tornado público o estudo (caso este exista!) que demonstre que estas obras não terão impactos no aumento do risco de cheias no centro antigo de Albufeira (a jusante deste troço da ribeira).

Uma das justificações do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Albufeira para toda a destruição, visível nas imagens, é particularmente tocante: "A água da ribeira não tinha qualidade e a linha de água estava transformada numa lixeira". Que é como quem diz, estes senhores até nos estão a fazer um favor, "requalificando ambientalmente" esta ribeira.

Fica também patente uma brilhante solução para todo o lixo que se acumula nas ribeiras deste país: encana-se a água! Quando todas as ribeiras deste país estiverem encanadas, acabam-se as linhas de água poluídas. Como é que ninguém se lembrou antes desta solução miraculosa?

E as ribeiras encanadas responsáveis pelo agravamento de tantas cheias em zonas urbanas do nosso país? Pormenores....Viva o progresso!




Claro que a Sr.ª presidente da ARH chega a admitir que a Câmara de Albufeira pode ter que "repor a situação". Coisa que eu pagava para ver, sobretudo a reposição da copa das dezenas de árvores decepadas e destruídas.


No fundo, todos sabemos como estes casos acabam e como a "política de terra queimada" continua a compensar no nosso país. Provavelmente, e com o previsível levantamento do embargo, a Câmara de Albufeira até poderá vir a ganhar tempo com este avançar das obras, por comparação com o que teria sucedido caso tivesse seguido todos os preceitos da lei.


Por estes dias, e a propósito do assassinato de Nino Vieira, oiço falar que a Guiné-Bissau é um Estado falhado. Com todas as diferenças, entre ambos os países e as situações descritas, apetece-me perguntar o que é Portugal?

Um país onde vigora a mais completa das impunidades, onde as Câmaras Municipais, órgãos do Estado que deveriam fazer cumprir as leis da República, cometem os maiores atropelos à legalidade, é o quê?


P. S. - Num país dito sério, por oposição a um Estado falhado, um presidente de Câmara que, de forma consciente, permitisse o avanço de obras sem licenciamento seria exonerado de forma célere; digamos que seria uma exoneração ao estilo "simplex"!

quarta-feira, março 04, 2009

Proposto novo regime de protecção para património verde de Lisboa

Foi proposto, pelo Partido Comunista, um novo regulamento municipal para protecção das árvores e arbustos da cidade de Lisboa. Ler notícia no Público.


ADENDA: Esta proposta do Partido Comunista vale o que vale... Apesar de ser uma proposta interessante, encerra a contradição típica dos partidos políticos portugueses, ou seja, defendem na oposição o que não cumprem no poder. Veja-se o caso dos sobreiros de Setúbal, autarquia comunista (1330 sobreiros propostos para abate a troco de mais mega-urbanizações, num país com milhares de casas novas para venda, para mais um centro comercial e, cereja em cima do bolo, mais um estádio de futebol).

No entanto, regresso a este assunto das árvores de Lisboa, para analisar o contraste entre a forma como olhamos, no nosso país, para as árvores antigas e a forma como estas são respeitadas e acarinhadas noutros países.

Meditem sobre o que está escrito neste folheto da Câmara Municipal de Lisboa sobre as árvores, em particular esta passagem: "A maior parte das espécies ornamentais vive menos de 100 anos. Na realidade, em meio urbano, as árvores ficam particularmente frágeis raramente ultrapassando os 60 a 80 anos de vida". Agora comparem com este texto sobre o Central Park, de Nova Iorque, e tirem as vossas próprias conclusões.

Novidades na varanda






Três azevinhos e uma laranjeira (para superar algumas desilusões na minha varanda).

terça-feira, março 03, 2009

Descobrir novos caminhos (desenhando)

No próximo dia 21 de Março, nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, festeja-se o equinócio da Primavera.

É a "Festa Desenho e Paisagem", dirigida a todas as idades e com entrada livre.

Para mais informações visitem a página da Gulbenkian ou da Associação Traços na Paisagem.

sábado, fevereiro 28, 2009

Reflexões sobre a natureza da vida

"A origem do mundo" de Gustave Courbet (Musée D' Orsay - Paris) - Fotografia de lapinot (retirada do blogue Avenida Central)

Árvore descaracterizada por poda radical (Braga, Inverno de 2008)


Nunca me deixará de surpreender como a celebração da vida incomoda muito mais gente do que a supressão e mutilação dessa mesma vida.



P. S. - Foi em Braga mas, sejamos honestos, poderia ter sido noutro sítio qualquer...


sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Publicidade enganosa (Actualização)

Acerca do texto publicado na passada segunda feira, sob o título "Publicidade enganosa", queria proceder à seguinte actualização:

Recebi um amável e-mail de Alexandrina Pipa, coordenadora do Projecto "Green Cork" da Quercus, explicando-me que irão averiguar a situação, caso a caso, procedendo à remoção dos sobreiros que estejam secos e à plantação, nos jardins do respectivo centro comercial, dos sobreiros que se encontrem sãos. Obrigado.

De novo, a "época amarela"









Mais do que o passado, deve-nos interessar o futuro. Mais do saber como chegámos aqui, será decisivo compreender como poderemos sair deste estado de coisas. Mas claro, aprendendo com as lições do passado.

E será que no nosso país, em termos de invasoras, aprendemos alguma coisa com o passado?

Claro que é interessante analisar a acção do Estado em termos de apoio à investigação nesta área e no combate efectivo à expansão de espécies invasoras/reconversão de zonas invadidas.

Apesar dos aspectos evocados no parágrafo anterior, considero que todas estas medidas serão sempre desconexas se não alterarmos, de forma profunda, a nossa ocupação do território.

Pelo menos no caso de muitas espécies invasoras, como é o caso da mimosa (Acacia dealbata Link), o avanço na área ocupada tem sido favorecido pelo abandono da agricultura e da exploração florestal.
É esta forma cada vez mais desadequada como ocupamos o nosso território e o exploramos, em termos agrícolas e florestais, que favorece um cada vez maior desleixo na paisagem, visível no avanço imparável das espécies invasoras.

Também o desleixo que votamos à limpeza das bermas faz destes espaços, onde a luz é um bem abundante, territórios preferenciais de avanço para muitas espécies que encontram neste factor, a quantidade de luz, um factor preferencial em termos de concorrência com as espécies nativas. Tal é o caso da referida mimosa, aquela que será, provavelmente, a mais agressiva das invasoras presentes no território continental.

[Observe-se nas imagens como as mimosas se concentram na berma das estradas (primeira imagem) e nas orlas de pinhais abandonados, favorecidas da abundância de luz].

No entanto, continuo a insistir que a primeira batalha a ganhar é a da informação. As pessoas que frequentem este blogue e outros de temática semelhante, fazem parte de um microcosmos que, por vezes, não se apercebe da pouca informação que existe sobre este assunto na sociedade portuguesa.

E isto é profundamente dramático, numa sociedade onde qualquer pessoa pode comprar sementes pela internet, as quais chegam a casa dessas pessoas em envelopes que, por certo, não levantarão as menores suspeitas. Acrescem as sementes e as plantas que entram, todos os dias, em território nacional pelas diferentes fronteiras do país.

Qualquer pessoa pode, de forma inconsciente, contribuir para agravar este problema. E não preciso de dar exemplos relativos a espécies que ainda não estão presentes no nosso país e que poderiam revelar-se como invasoras.
Mesmo em relação às espécies que estão referidas na legislação nacional como sendo invasoras, que fracção da nossa população tem conhecimento das mesmas? Num país onde as mimosas aparecem em folhetos turísticos e continuam a inspirar raids fotográficos ou, para dar um exemplo insular, as hortênsias são a imagem de marca dos Açores, muito há ainda a fazer em termos de disseminar a informação.

Claro que a informação não elimina por si só este problema. No entanto, a partir do momento em que as pessoas estejam informadas, diminuiremos drasticamente o número daqueles que continuam a propagá-las por simples ignorância do problema.

Restarão apenas aqueles que o fazem por negligência ou por fins económicos...Ora eu quero acreditar que estes serão em muito menor número do que aqueles que o fazem por mero desconhecimento da situação.

Sem vencermos esta primeira batalha da disseminação da informação e do conhecimento, nunca venceremos as seguintes que serão bem mais árduas e demoradas de vencer.


Para saber mais sobre este problema:

- Plantas Invasoras em Portugal.
- DAISIE (Delivering Alien Invasive Species Inventories for Europe) (Nota: O projecto europeu DAISIE não se limita às questões relacionadas com a Botânica).


Para conhecer projectos nacionais de luta contra as plantas invasoras/reconversão de zonas invadidas:

- Recuperação ecológica do Cabeço Santo.
- Recuperação do património natural na Serra do Açor (o controlo da Acacia dealbata Link).

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

O sindicato das árvores

Cartoon de El Roto - Imagem retirada do blogue "La memoria del bosque"

"As árvores devem ser cortadas quando são novas porque, caso contrário, crescem e tornam-se reivindicativas".

Como dizia o meu amigo Serafim, no outro dia, o que faz falta é um "sindicato das árvores" para as defender...

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Night and day







(...) Night and day, you are the one
Only you beneath the moon or under the sun
Whether near to me, or far
It's no matter darling where you are
I think of you...

Cole Porter



Será possível, a um homem, amar uma montanha como quem ama uma mulher?



(Nota: a primeira fotografia é de minha autoria e foi tirada no dia 24 de Janeiro; a segunda e espectacular imagem foi tirada, por Pedro Seixo Rodrigues, na noite de 9 de Fevereiro. A descoberta deste magnífico trabalho devo-a à leitura do Cântaro Zangado).

terça-feira, fevereiro 24, 2009

O assassinato de um gigante

Fotografia de Apatxe (Panoramio)

A imagem anterior ilustra a Fayona de Eiros, uma faia (Fagus sylvatica L.) monumental que se situava na povoação de Eiros (Astúrias), no máximo da sua grandiosidade de mais de dois séculos de idade.

E a imagem seguinte, do passado mês de Janeiro, mostra este mesmo gigante tombado perante o olhar incrédulo de várias pessoas...

Fotografia "La Crónica Verde"

Apressaram-se os que culparam a força do vento e a desproporção das suas dimensões. O que ninguém soube dizer foi porque ventos mais fortes, no passado, se revelaram incapazes de a derrubar...Ou porque a referida desproporção não afectou a sua solidez durante tantas décadas. Numa única pergunta: porquê agora?

A verdade é que um reputado especialista em árvores, José Plumed, descobrira em 2005 que a mesma estava infectada por um fungo cujo alastrar, muito provavelmente, fora acelerado pela abertura de um caminho junto à mesma, provocando uma amputação de parte do sistema radicular da árvore. (Notícia completa: La Crónica Verde)

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Publicidade enganosa

Como é evidente, nada me move contra o projecto de reciclagem Green Cork (uma iniciativa da Quercus).

O problema é que em certos centros comerciais, para chamar a atenção para este projecto, foram colocados sobreiros dentro de vasos. Até aqui nada de especial, excepto...Excepto pelo facto de ter sido alertado, pela segunda vez, para a morte destes sobreiros envasados (desta vez, segundo denúncia de um leitor deste blogue, ocorreu no Picoas Plaza).

Esta situação, seja ela responsabilidade da Quercus ou da administração dos centros comerciais, em nada favorece a imagem desta campanha. Também me parece que não se pode desculpabilizar esta situação apenas porque estes sobreiros provêm de viveiros, pois muito mal estaríamos se alguém os tivesse ido buscar a uma qualquer mata!

O que não faz sentido é uma campanha de reciclagem de rolhas de cortiça, com cujos fundos se pretende financiar campanhas de reflorestação com sobreiros, ser publicitada com árvores que são deixadas morrer pela mais pura e completa das negligências.


P.S. - Como forma de sossegar alguns espíritos mais sensíveis à crítica...Sim, esta situação foi comunicada, via correio electrónico, para: quercus(at)quercus.pt e lisboa(at)quercus.pt

ADENDA: Recebi um amável e-mail de Alexandrina Pipa, coordenadora do Projecto "Green Cork" da Quercus, explicando-me que irão averiguar a situação, caso a caso, procedendo à remoção dos sobreiros que estejam secos e à plantação, nos jardins do respectivo centro comercial, dos sobreiros que se encontrarem sãos. Obrigado.

As cidades transformadas em árvores


Rome - Lee Jang Sub (via Territorius)

domingo, fevereiro 22, 2009

Poda radical é crime!

Imagem retirado do blogue "O ambiente na Figueira da Foz"

Tenho a sensação que esta iniciativa da Prefeitura de São Paulo é impossível de replicar nos nossos municípios e por um motivo bem simples...



É que por cá, as autarquias sancionam, com o dinheiro dos contribuintes, a destruição do património arbóreo situado na via pública.


sábado, fevereiro 21, 2009

Uma floresta dentro de uma garrafa



Amanhã, dia 22 de Fevereiro, às 11H 55 min., a SIC irá transmitir um documentário intitulado “Cork – Forest in a Bottle”, produzido pela BBC. (Nota: Este documentário foi transmitido pela BBC Two em Dezembro de 2008 e pela BBC One em Janeiro deste ano).

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

A arte de negar as evidências

Fotografia de Nelson Lima


Os vereadores da oposição na Câmara Municipal da Figueira da Foz decidiram convocar uma conferência de imprensa, com a presença de um dos mais reputados técnicos de arboricultura portugueses, para questionar a autarquia local sobre a qualidade da manutenção das árvores ornamentais na cidade.

O vereador do Ambiente da autarquia, José Elísio Oliveira, afirmou, em resposta, ao Jornal de Notícias: "Temos técnicos especialistas na área, a empresa com a qual trabalhamos também os tem. E não temos razão nenhuma para por em causa a competência dos técnicos e duvidar da sua competência".

A fotografia anterior ilustra bem a "qualidade" das intervenções efectuadas nas árvores da Figueira da Foz, bem como as demais imagens que acompanham um texto que publiquei em Abril último.


P.S. - No passado mês de Maio tive ocasião de passar na Figueira da Foz e só lamento não me ter feito acompanhar de uma máquina fotográfica, de modo a poder documentar o mostruário* de horrores perpetrado contra as árvores desta cidade por quem, segundo o dito vereador, tanto percebe de podas.

* A palavra "monstruário" talvez fosse mais adequada...


quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Sobre o escandaloso abate de sobreiros em Setúbal


Sobre o escandaloso abate de sobreiros em Setúbal, situação sobre a qual já me tinha pronunciado em Agosto passado, gostava de convidar os leitores da "Sombra Verde" a visitar o blogue "Ambio" e acompanhar a troca de opiniões sobre esta matéria.

sábado, fevereiro 14, 2009

As eleitas

Segue-se, geograficamente ordenado de Sul para Norte, o conjunto de árvores que eu e o Miguel propusemos à Autoridade Florestal Nacional, na passada semana, para classificação como árvores de interesse público:



A paineira de Odemira.



Uma das oliveiras mais grossas de Portugal* - Serpa


* De acordo com a comparação feita com os dados conhecidos de oliveiras classificadas como árvores de interesse público. Em breve, será feito um texto específico sobre esta oliveira, incluindo as respectivas dimensões, no Árvores Monumentais do Algarve e Baixo Alentejo.




Sobreiro situado junto à estrada N258 entre o Alvito e a Vidigueira*.


* Brevemente, mais informações sobre este sobreiro no Árvores Monumentais do Algarve e Baixo Alentejo.





A oliveira dos namorados de Alvito.




As pseudotsugas de Manteigas.




A araucária de Viana do Castelo (supostamente, a mais alta árvore de Natal natural da Europa).




O sobreiro de Taião (Valença)


Os critérios para a selecção deste conjunto de árvores prenderam-se, para além das características de cada árvore ou conjunto de árvores, com o facto de se situarem em terrenos públicos ou no perímetro de instituições públicas (como é caso da araucária de Viana do Castelo).

Temos muitas outras árvores notáveis em "lista de espera" mas, como se situam em terrenos particulares, teremos que conferenciar com cada um dos respectivos proprietários, antes de as propor para classificação.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

As pseudotsugas de Manteigas

No passado mês de Julho, eu e o Miguel Rodrigues passámos 3 dias a fotografar e a medir árvores na zona da Serra da Estrela.

Visitámos árvores extraordinárias, das maiores e mais grossas do nosso país, numa jornada memorável.
E se dessa jornada pouco ou nada tenho falado, nem partilhado as respectivas imagens, é porque as estou a guardar para um novo projecto que espero possa ver a luz do dia muito em breve.

No entanto, decidi abrir uma excepção para um fabuloso conjunto de pseudotsugas [Pseudotsuga menziesii (Mirb.) Franco] situado na encosta da Pousada de S. Lourenço, a poucos quilómetros de Manteigas.

O justificativo para a abertura desta excepção é bem simples... Estas árvores fazem parte dum conjunto de exemplares que eu e o Miguel decidimos propor para classificação como árvores de interesse público (e sobre o qual darei mais pormenores em breve).

Mas voltemos às pseudotsugas, com as palavras que Ernesto Goes lhes dedicou no "Árvores Monumentais de Portugal": "Na Serra da Estrela, próximo da Pousada de S. Lourenço a uma altitude de 1 400 metros, foi plantado em 1905 um pequeno povoamento desta espécie, em que as árvores têm presentemente 0,80 a 1,05 metros de D.A.P. e cerca de 50 metros de altura. Trata-se do povoamento mais espectacular do país, que tem sido admirado mesmo por técnicos americanos, que afirmam não existir no seu país, exemplares maiores com aquela idade".

[Pseudotsuga menziesii (Mirb.) Franco] - Serra da Estrela (junto da Pousada de S. Lourenço, Manteigas)

Trata-se de um conjunto notável de árvores, conhecido de todos os que percorrem a N232 entre Manteigas e as Penhas Douradas, junto da Pousada de S. Lourenço. A densidade deste povoamento e a altura das árvores provocam um permanente ensombramento na zona da estrada que atravessa esta zona florestal.



Com o instrumento de medição de altura que dispomos, um blume leiss, e dada a localização das árvores e a proximidade entre elas, foi-nos impossível determinar a altura destas árvores e, em particular, dos exemplares que aparentam ser os mais altos.

[Pseudotsuga menziesii (Mirb.) Franco] - Serra da Estrela (junto da Pousada de S. Lourenço, Manteigas)

Apesar do descrito, e fazendo uso de algumas "engenhocas", calculámos a altura de algumas pseudotsugas, junto à estrada, nos 30 a 40 metros.
No entanto, estes exemplares não aparentam ser os mais altos, pelo que haverá exemplares perto, ou mesmo acima, dos 50 metros (tal como referido no "Árvores Monumentais de Portugal"); a este propósito, é necessário fazer uma pequena correcção às palavras de Ernesto Goes, uma vez que a maioria destas pseudotsugas se situa entre os 1 100 e os 1 200 metros de altitude, e não a 1 400 metros tal como referido no citado livro.

É de lamentar, dada a importância deste povoamento, que não existam dados oficiais sobre a altura destas árvores.
De acordo com o "Árvores Monumentais de Portugal", a pseudotsuga mais alta do país deverá ser um exemplar que se situa na Mata do Buçaco, junto da casa do guarda da Porta da Lapa, que em 1984, à altura da edição deste livro, teria 45 metros de altura; apesar de não ter fotografias da mesma, posso garantir que se trata de uma árvore colossal (no entanto, não me admiraria que existisse algum exemplar neste povoamento de Manteigas com altura superior).


De recordar que, no Noroeste da América do Norte, no seu habitat original, as pseudotsugas podem ultrapassar os 100 metros de altura [apenas superadas pelas sequóias da espécie Sequoia sempervirens (D. Don) Endl.].


P.S. - A referência a esta mata não ficaria completa sem mencionar uma última surpresa, parcialmente visível na fotografia que se segue...



No lado esquerdo da fotografia, aparece um esguio mas "gigantesco" carvalho-negral (Quercus pyrenaica Willd.).
Rodeado de enormes pseudotsugas, este carvalho viu-se obrigado a crescer em altura, competindo pela escassa luminosidade existente no seio desta mata.

Não será o mais bonito, grosso ou volumoso carvalho-negral do nosso país mas será, certamente, o mais alto de Portugal.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Exemplos (bons e maus)








São 50 os anos que separam as duas imagens, as quais retratam a Capela de Nossa Senhora da Estrela, na freguesia da Boidobra (concelho da Covilhã).

A primeira destas imagens é uma digitalização a partir de uma fotografia do livro "A Árvore em Portugal", de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles (1ª edição datada de 1960). Acompanha esta imagem, no referido livro, a seguinte legenda: "Os dois plátanos, anda novos, são já marcantes na paisagem do Zêzere, valorizando o templo".

Pela segunda imagem, é fácil constatar que os plátanos cresceram em número mas perderam em beleza e hoje, em nada, contribuem para a "valorização do templo".

Parece uma sina de difícil fuga, a vontade humana em destruir a árvore e menosprezar a sua importância na paisagem e na conjugação com a arquitectura humana.

Penso nos bons exemplos que tenho dado aqui na "sombra" e lamento que, com o tempo, e tal como neste caso da Boidobra, todos eles se convertam, sob a ignomínia humana, em maus exemplos.


P.S. - Sobre a importância das árvores na valorização de um conjunto arquitectónico pedia que, mais uma vez, visualizassem a Capela de Nossa Senhora de Assedasse (Serra da Estrela).

quinta-feira, janeiro 22, 2009

É bonita a árvore!




Um sobreiro (Quercus suber L.) de fazer suster a respiração... No coração da serra algarvia, algures no Ribatejo ou na Estremadura? No Alentejo? Nas Beiras? Alguém quer arriscar um palpite?

Desconheço a vossa resposta à pergunta anterior, mas duvido que alguém tenha respondido "Minho".




Foi no coração do Alto Minho, mais concretamente na freguesia de Taião (concelho de Valença), que o Miguel Rodrigues descobriu este exemplar maravilhoso.

Tem tudo...Beleza (não corrompida por poda desajustada); possui uma copa ampla, bem desenvolvida e um tronco corpulento. E, pormenor importante, aparenta uma vitalidade transbordante.

No Reino das Árvores este sobreiro seria um sedutor... Eu, pelo menos, não lhe resisti.




P.S. - Todo o mérito da reportagem fotográfica que relata esta descoberta é do Miguel Rodrigues.

É a esperança de continuar a descobrir árvores como esta que nos move, por esse país, em busca da próxima...

domingo, janeiro 18, 2009

Poesia verde

Domingo. Araucária. Vila do Bispo.


A poesia anda à solta...É só preciso saber como agarrá-la sabendo que, tal como a liberdade, esta não pode ser encarcerada.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Boas intenções




Um pequeno recanto num passeio... À primeira vista, parece ser o recanto perfeito para plantar uma árvore e colocar um banco de jardim.

Com um pequeníssimo esforço conseguimos imaginar o futuro, com alguém sentado no banco desfrutando da sombra da árvore. O problema é que...

O problema é que esta árvore, um carvalho, foi plantada à distância de pouco mais de um passo do prédio que se observa na imagem. O futuro, como se compreenderá facilmente, vai ser bem diferente, pois dentro de poucos anos teremos esta árvore, de grande porte, a colidir com o prédio e com o poste de iluminação.

Porquê? Porquê insistir em plantar árvores, sobretudo as de grande porte, em locais onde elas não dispõem do espaço suficiente para crescer?

Plante-se uma árvore de pequeno porte; plante-se um arbusto ou coloque-se um vaso com flores... Porque de boas intenções está o inferno cheio!


P.S. - Escolhi esta situação, em particular, como poderia ter escolhido uma outra qualquer, dentro dos variadíssimos exemplos que é possível encontrar em qualquer localidade portuguesa, vila ou cidade.

E é esta falta de planeamento, na hora de plantar a árvore, que serve depois de "justificação" à ignomínia ilustrada em fotografias como a que acompanha o texto de Joaquim Vieira Natividade, que publiquei a 8 de Janeiro último.


terça-feira, janeiro 13, 2009

A árvore é uma boa amiga nossa

Capela de Nossa Senhora da Assedasse, Serra da Estrela - Parque Natural da Serra da Estrela


"(...) Disponha, pois, só de mais alguns minutos, antes de nos despedirmos; e oiça agora falar ainda da árvore, mas sôb outro aspecto.
Ponhamos de banda propriamente os serviços que a árvore presta; e vamos a vêr o que ela tem de agradável para nós.
Repare o leitor que, além das coisas a que damos mais valor porque nos são de maior utilidade e satisfazem as nossas necessidades primeiras, outras há que também valem só pelo prazer que nos dão quando as vemos, só porque são belas.
O que mais distingue um homem educado daquele que o não é, é justamente o apreço que o primeiro dá aquilo que tem beleza e o saber distinguir nas coisas que o cercam onde essa beleza se encontra.


(…) Não, meus caros leitores, não ha só isso a considerar nas árvores; não ha só que vêr o que elas produzem e que calcular o valor dos seus produtos; ha ainda, por assim dizer, que agradecer-lhes, e que gostar delas, pelo conforto, pela alegria, pelo prazer de dentro da alma que nos dão quando são belas, e as topamos, às vezes tristes, às vezes cansados no nosso caminho.


(…) Não é preciso dizer mais: no campo, como na cidade, a árvore é bela; por sua intervenção é que a gente se afeiçoa a determinados sítios; graças a ela é que damos preferência muitas vezes a determinados passeios; e alegres ou tristes que nos sintâmos será em frente da paisagem que ela embelezar que nos encontraremos bem, para pensar tranquilamente nas nossas tristezas, ou para dar largas à nossa alegria de viver!
A árvore, acreditai-me leitores, é uma boa amiga nossa!"



Belíssimo texto partilhado por um leitor da "Sombra Verde": "Aqui partilho (como contribuição) um pequeno texto do mestre do Natividade e do Gomes Guerreiro no curso de Silvicultura do ISA, o prof. Mário de Azevedo Gomes, retirado de um livrinho de 1916, destinado à "educação popular", com o nome sugestivo "A Utilidade das Árvores" [reeditado pela Câmara Municipal de Sintra, no dia do Ambiente do ano passado]".

Muito obrigado.

sábado, janeiro 10, 2009

Uma pergunta de difícil resposta

Carvalho-americano (Quercus rubra L.) - Pousada de S. Bento (Caniçada, Gerês)


Quando é que uma árvore, de uma determinada espécie, deixa de ser um exemplar monumental, de dimensões acima da média, para passar a ser um espécime digno de ser considerado árvore de interesse público?

Podendo parecer fácil, considero que é uma pergunta de muito difícil resposta. Acresce que os motivos que podem justificar a classificação de uma árvore podem ser de diversa índole; atente-se na questão da relevância histórica e cultural, como no caso da azinheira de Fátima.

No entanto, e no que concerne especificamente às dimensões das árvores, considero que deveria ser encontrado um sistema que uniformizasse as condições para a classificação de um determinado exemplar arbóreo. Recorde-se, a este propósito, o que acontece nos E.U.A., com o National Register of Big Trees (ver página 3 do documento pdf).


Independentemente das considerações anteriores, chamo a atenção para a magnífica árvore que acompanha este texto. Um belíssimo carvalho-americano (Quercus rubra L.) com privilegiada vista para a Barragem da Caniçada, no Gerês. Um sério candidato a gigante...