domingo, Março 30, 2008

Retratos do Portugal que odeia as árvores (XII)









Mais um apelo que me chegou via Arboricultura Moderna, desta vez com origem na denúncia de uma cidadã de Loures.

A referida cidadã confrontou a câmara local que passou as responsabilidades para a respectiva junta de freguesia, a qual tentou justificar o injustificável com algo do género: "(...) os plátanos eram novos tinham que levar uma poda mais séria para depois então poderem crescer."

E como crescerão as árvores nas florestas sem a "ajuda" destas podas "arboricidas"? E como conseguiram crescer os plátanos monumentais que, apesar de tudo, ainda temos por este país e que nunca foram abençoados por estas práticas terceiro-mundistas? Mistério!



Mas para que não se pense que este ódio à árvore é um exclusivo nacional, chamo a atenção para o derrube criminoso de vários teixos no Norte de Espanha (Astúrias).

A denúncia deste acto criminoso tem sido feita pelo blogue A Morteira (em particular nos textos datados de: 26 de Março , 22 de Março , 16 de Março e 8 de Março).

Este atentado está hoje também em destaque no jornal El Mundo.


P.S. - Para conhecer alguns amigos espanhóis do teixo que trabalham com afinco para salvar esta espécie:

Asociación de Amigos del Tejo

Amigos del texu

sexta-feira, Março 28, 2008

A mais... (Dedicada ao Portugal que ama as árvores)

Oliveira (Olea europaea L.) - Tôr (Loulé)

A mais bonita, a mais grossa ou, simplesmente, a mais...

São um pouco mais de 8 metros de grossura do tronco. O suficiente para ultrapassar a até agora rainha das oliveiras algarvias - a oliveira da Pedras D'el Rei (Tavira).

Esta oliveira é (provavelmente) a árvore que mais nos impressionou, a mim e ao Miguel, de todas as que o Luís Brás da Almargem nos deu a conhecer através do seu trabalho "Vamos Conhecer as Árvores Monumentais do Concelho de Loulé".

Desde algum tempo que tínhamos conhecimento desta árvore e confesso que, pessoalmente, se tinha tornado uma obsessão. (Imaginem serem viciados em chocolate e alguém vos indicar um sítio onde de graça podiam comer todo o toblerone do mundo...E sem calorias! Era mais ou menos assim que eu me sentia...E se valeu a pena comer o toblerone? Claro que sim! Porque este "toblerone" na forma de oliveira está aqui para poder ser descoberto por todos aqueles que amam as árvores).



P.S. - Mais pormenores (medidas e fotografias) no Árvores Monumentais do Algarve e Baixo Alentejo.

Despertares

Nogueira (Juglans regia L.)

Acho que já encontrei um "mãe adoptiva" para esta nogueira da minha pequena maternidade de árvores.



P.S. - Algumas notícias sobre árvores:

- Prossegue o abate de árvores na Avenida José da Costa Mealha (em Loulé). Situação que se iniciou o ano passado (ver aqui). Continuamos à espera da justificação técnica...

- Um quarto das árvores dos Parques Nacionais de Espanha estão danificadas.

- Uma editora de Torres Vedras vai começar a plantar árvores como forma de compensar o meio ambiente pelas emissões de dióxido de carbono que resultam do processo de edição dos livros.

- Alunos plantam árvores em escola de Portimão.

- Um milhão de árvores para o Parque Integrado das Furnas (S. Miguel, Açores).

- Maternidade de árvores para defender a floresta (em Góis).

quinta-feira, Março 27, 2008

Retratos do Portugal que odeia as árvores (XI)







Apresento mais um conjunto de fotografias, tiradas por mim aquando de uma recente passagem pela Lousã, e que relatam mais um caso de difícil explicação. As vítimas? As do costume...Os plátanos!

Decidi questionar via e-mail a autarquia local e aguardo uma "explicação técnica" para este conjunto deplorável de cotos que aqui se pode observar. Dessa resposta, ou da sua ausência, darei conta nos próximos dias.

No fundo, espero receber da autarquia da Lousã uma fundamentação técnica tão detalhada como a que presidiu à decisão de cortar um conjunto de choupos no Parque Municipal da Mêda.

É isso que pretendo fazer, ou seja, não é condenar ninguém a priori mas antes pedir a devida justificação. Aguardemos...

Adenda: referência à resposta da Câmara Municipal da Lousã neste texto.



P.S. - Mais notícias tristes sobre árvores:

- Árvores mutiladas num recinto escolar na zona do Porto (via Malcata.net).

- Estranhas esculturas arbóreas nas ruas de Campo Maior (via Gambozino).

- Duas árvores centenárias da freguesia de Avelãs de Caminho (Anadia) vão ser abatidas e substituídas por outras. Mais uma vez, e tal como no caso da Mêda, suponho que esta decisão política assente num relatório técnico.

- Choupo de grande porte atrai invulgar bando de pássaros (via jornal A Guarda). Ficção de 1963 de Alfred Hitchcock tornada realidade nesta cidade da Beira Interior? Pessoalmente, preocupa-me muito mais o dia em que os pássaros desaparecerem...

- Abate ilegal de azinheiras no Alentejo - via Ecosfera. Como seria de prever grande parte do debate acerca deste caso centrou-se na nacionalidade espanhola de quem executou este abate. Considero isso perfeitamente irrelevante excepto pelo facto de que, se estivessem na sua Espanha natal, provavelmente não teriam tido a coragem para abater tantas azinheiras. Mas como estamos em Portugal onde a impunidade é um modo de vida!
Interessa-me muito mais o debate sobre quais as vantagens/desvantagens para o futuro do nosso mundo rural desta aposta no olival intensivo e o real impacto desta cultura nos solos e nos recursos hídricos.
Mas por cá só nos interessa o "folclore", ou seja, se as azinheiras tivessem sido abatidas por portugueses se calhar nem teria havido notícia.


Esclarecimento

Em relação ao corte de árvores no Parque Municipal da Mêda que ontem aqui foi referenciado, foi publicada na edição de hoje do Diário XXI a seguinte notícia:

"A Câmara de Mêda está a levar a cabo um plano de abate e limpeza das árvores do parque municipal, motivado "por questões de saúde pública", explicou ao Diário XXI Fernando Lopes, assessor do presidente daquela edilidade, depois de uma habitante de Mêda se queixar, ao Diário XXI, do corte de cinco plantas. O plano de abate surge na sequência de "inúmeras queixas de habitantes sobre o pólen que as árvores largam no Verão", esclareceu, acrescentando que o programa de abate está a ser efectuado por "uma empresa especializada ligada à Fundação Serralves".
Iniciado na última segunda-feira, o plano de intervenção prevê o abate de árvores ocas, assim como a limpeza de outras, adianta Fernando Lopes. "São já muito antigas e imponentes, mas se causam problemas de saúde às pessoas temos de os resolver e só estamos a cortar as que estão podres e em fim de vida", concluiu."


Em relação a esta notícia tenho as seguintes considerações a fazer:

1º) Saúdo a Câmara Municipal da Mêda por prestar esclarecimentos públicos em relação a este caso o que, apesar de tudo, ainda é uma excepção entre as autarquias portuguesas; saúdo, uma vez mais, a atitude cívica da munícipe da Mêda que denunciou esta situação e que, pela sua acção, suscitou a necessidade desta ser devidamente explicada.
Agradeço ainda ao Sr. Paulo Moura por alguns esclarecimentos prestados acerca deste caso.

2º) Não questiono a competência técnica dos arboricultores ao serviço da Fundação de Serralves. Se os mesmos garantem que apenas as árvores em risco de cair estão a ser cortadas, não tenho nada a opor a essa acção, por mais que me custe ver árvores de grande porte a ser abatidas.
Reconheço que no espaço urbano a segurança das pessoas e dos seus bens deve ser colocada em primeiro lugar até porque, no dia em que uma destas árvores caísse e mesmo não provocando vítimas ou quaisquer outros danos, tal serviria de desculpa para decepar todas as outras árvores.
Compete às autarquias fazer uma gestão correcta do seu património arbóreo, contratando técnicos credenciados para tal, como forma de garantir o máximo de longevidade às árvores e reduzir ao mínimo o perigo de queda das mesmas.

Aliás essa é uma das causas deste blogue, ou seja, que a gestão das árvores no espaço urbano seja feita exclusivamente por técnicos especializados na manutenção de árvores ornamentais, o que parece ser o caso na Mêda.

3º) Em relação às alergias como motivo para cortar árvores, permitam-me que discorde pelos seguintes motivos:

a) As árvores são um garante da qualidade do ar nas cidades. Cito novamente uma passagem de uma notícia do Diário de Coimbra: "(...) O parecer emitido então pela Provedoria do Ambiente e Qualidade de Vida Urbana de Coimbra, a que estavam anexados outros dois, de Jorge Paiva, do Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra, e de Ana Todo Bom, presidente cessante da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia, comprovava que as causas das alergias não estavam apenas na libertação de pólen, frutos e sementes pelas plantas e que, apesar de se assistir a «um aumento das reacções alérgicas», era «a poluição resultante do tráfego automóvel que exponenciava» este mesmo efeito alérgico."

Dito por outras palavras, o pólen das árvores, como o de muitas outras plantas, pode provocar reacções alérgicas, mas é a poluição que potencia os efeitos práticos ao nível do aparecimento de alergias. É mais que sabido e indesmentível que as árvores desempenham um papel insubstituível no combate a essa mesma poluição.

b) Se pretendêssemos eliminar todas as árvores constantes da lista das famílias polínicas alergisantes em Portugal (segundo dados dos boletins polínicos da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica), então teríamos que eliminar das nossas cidades (e já agora dos campos e matas circundantes às mesmas) as seguintes espécies: áceres, bétulas, amieiros, ciprestes, zimbros, carvalhos, castanheiros, castanheiros-da-índia, nogueiras, oliveiras, freixos, ligustros, palmeiras, pinheiros, cedros, plátanos, salgueiros, choupos, teixos, tílias e ulmeiros.

Resumindo: teríamos que abater mais de 90% das árvores das nossas cidades, campos e florestas! Não me parece viável....

c) Concentremo-nos no caso dos choupos. No site da
Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica não existe informação específica para este género (Populus) mas existe para os salgueiros (género Salix), que pertencem à mesma família (Salicaceae).
E essa informação diz-nos que a alergenicidade do pólen destas espécies é baixa.

De onde virá então esta "embirração" com os choupos? Creio que a mesma deriva dos filamentos (semelhantes a algodão) que inundam o ar na Primavera e que servem para facilitar a dispersão das sementes destas árvores.

Deste modo, mais uma vez apelo a que Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica nos esclareça sobre a possível alergenicidade destes filamentos, para que os mesmos não continuem a estimular a fúria popular contra os choupos.
Por outro lado, as espécies de choupos mais frequentes em Portugal [Populus alba L., Populus nigra L., Populus x canescens (Ait.) Sm., Populus tremula L. e Populus x canadensis Moench] florescem na Primavera e não no Verão.

ADENDA: argumentação técnica que determinou a necessidade de abater os choupos do Parque Municipal da Mêda.

Poemas e outras histórias

- Um sítio com vários poemas sobre árvores.

- A plantação simbólica de 25 sobreiros e azinheiras em Beja vai marcar, a 28 de Abril, o lançamento em Portugal de um fórum luso-espanhol que pretende alertar para a mortalidade "anormal" que afecta o montado.

- Informação do Boletim Municipal "Guarda Viva": o espaço educativo florestal da Quinta da Maúnça vai receber este ano mais de 30 000 árvores para reflorestar áreas degradadas e sujeitas à erosão. Esta acção será feita no âmbito da candidatura ao programa ProNatura da ANEFA (Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente).

quarta-feira, Março 26, 2008

Aos que resistem...

Plátanos (Platanus orientalis L. var. acerifolia Aiton) - Covilhã (Março, 2008). Como todos os plátanos deveriam ser...


Este é um texto dedicado às árvores que resistem e aos que insistem em gostar de árvores num país que tanta as despreza.

Há tempos tive oportunidade de recomendar a leitura do livro "Beatriz e o plátano" de Ilse Losa. O que volto a fazer, em particular a todos aqueles que ocupam lugares de decisão nas autarquias ou demais órgãos da administração central ou local com jurisdição sobre as árvores.

Nesse texto que escrevi sobre o livro de Ilse Losa, mencionava o facto de estar, em conjunto com a minha colega de Área de Projecto do 5ºD e com todos os alunos dessa turma, a trabalhar na exploração dessa obra.
Estamos a preparar a apresentação desse livro na forma de uma peça de teatro mas, entretanto, propusemos aos alunos da turma que escrevessem às autoridades um conjunto de cartas apelando contra o corte de uma determinada árvore. O resultado da imaginação dos nossos alunos pode ser lido aqui.

De todas essas cartas, gostaria de destacar a frase do Marlon: "As árvores transformam o barulho em canções de pássaros". É isso mesmo que as árvores fazem, transformam o feio em bonito.



Retratos do Portugal que odeia as árvores (X)


Mais um caso de (aparente) "arboricídio" sem motivo. Local: Parque Municipal da cidade da Mêda.

E se escrevi aparente entre parênteses é porque neste, como noutros casos, concedo o benefício da dúvida à autarquia e o direito/dever de apresentar as razões que fundamentam o corte das árvores. Não que a mesma deva explicações em particular aos leitores deste blogue, mas antes de mais deve-as a todos os munícipes da Mêda.



Se estes exemplares abatidos estavam no Parque Municipal, um espaço verde onde se pressupõe que possam existir árvores e que estas possam crescer livremente, depreendo que as mesmas não estavam a interferir com nenhuma estrutura física (habitações, postes de electricidade, etc.).

Penso que também não se dará o caso da Câmara da Mêda estar a planear arrasar o Parque Municipal para fazer um "shopping"! Não acredito que pessoas responsáveis mandassem abater árvores adultas que levaram anos a crescer, apenas porque o senhor X ou a senhora Y se queixavam do barulho dos pássaros, das folhas que entupiam as sarjetas ou por lhes taparem as "vistas" à casa.



Resta então a única hipótese plausível e aceitável, ou seja, estas árvores apresentavam um estado de degradação adiantado e existia o claro risco de tombarem sobre a via pública. Assim sendo, com certeza que a Câmara Municipal da Mêda não terá qualquer problema em clarificar qual foi a empresa especializada em arboricultura que fez o respectivo diagnóstico.

A menos que...Bom, a menos que tenha sido qualquer funcionário da Câmara mais zeloso a tomar esta iniciativa, sem que a mesma esteja devidamente fundamentada do ponto de vista técnico (alguém assim com poderes "adivinhatórios" como os da vereadora da Câmara do Bombarral que sozinha conseguiu identificar várias árvores perigosas no seu concelho). Mas não quero acreditar nisso, afinal ainda na semana passada comemorámos o Dia da Árvore!

Ficamos à espera da resposta da Câmara da Mêda.

P.S. - Da minha parte, um agradecimento à leitora da Mêda que teve a coragem cívica de dar a conhecer este caso e enviar as fotografias que acompanham este texto.

ADENDA- Desenvolvimento desta história: justificação técnica que presidiu à decisão de cortar este conjunto de choupos situados no Parque Municipal da Mêda.

terça-feira, Março 25, 2008

Retratos do Portugal que odeia as árvores (IX)

Monte Crasto (Gondomar) - Março de 2008 (Fotografias de Paulo Moura)

O Paulo Araújo do Dias com Árvores solicitou-me a publicitação de um caso que lhe chegou via e-mail por parte de Paulo Moura, técnico de arboricultura.

Trata-se de um verdadeiro massacre de dezenas de árvores, perpetrado em vésperas do Dia da Árvore, no Monte Crasto em Gondomar. O horrendo espectáculo pode ser contemplado nesta página do Picasa.

Aparentemente, e tanto quanto o referido cidadão conseguiu apurar, a responsabilidade directa não será da autarquia local, no sentido em que esta não terá sido a mandante deste "arboricídio". No entanto, e dada a responsabilidade que as autarquias têm na preservação do património colectivo, esta terá sido, no mínimo, omissa no cumprimento das suas obrigações de zelar pelo respeito das leis que salvaguardam o dito património.

O espectáculo é absolutamente degradante e confesso que tive dificuldade em observar a apresentação de fotografias na sua totalidade.
Acresce que, tal como o Paulo Moura refere no e-mail que escreveu, não se vislumbra aqui nenhum motivo* que justifique esta barbaridade, excepto o facto das mesmas estarem a tapar as "vistas" de algumas casas. O que, como se sabe, é um dos maiores crimes que uma árvore pode cometer e motivo mais do que suficiente para a decepar.

(* não que existisse algum motivo que pudesse justificar este crime!)


Sim, caríssimos mandantes deste "arboricídio", quais foram os motivos para esta acção? Estariam as árvores a interferir com alguma casa? Com algum fio dos telefones, com cabos de electricidade ou com algum poste de iluminação pública? Existiriam lugares de estacionamento sob as suas copas e condutores furiosos por verem as suas viaturas sujas com o maldito "cocó" dos pássaros?

Não...já sei! Estas árvores, todas elas, estavam em risco de cair! Claro, como não me lembrei disso...Já agora, não se importavam de mostrar os relatórios técnicos que comprovam esse diagnóstico? Acompanhados, obviamente, do diagnóstico que demonstra que não existe perigo relativamente às árvores que fizeram o favor de não decepar. E, como sou um tipo desconfiado, poderiam anexar as vossas credenciais técnicas em arboricultura, entenda-se na manutenção de árvores ornamentais (?)

Monte Crasto (Gondomar) - Dezembro de 2005 (Fotografias de Paulo Moura)

O Paulo Moura lembra ainda que este não é um caso inédito e que em Dezembro de 2005 já tinha denunciado a poda de um sobreiro no mesmo local (ver apresentação aqui). Esta denúncia foi feita junto de várias autoridades, incluindo junto da Direcção-Geral dos Recursos Florestais, visto tratar-se de uma espécie protegida. Estes serviços terão autorizado a referida acção porque, pasme-se, lhes foi garantido que iria ser deixado um "toco" mas que a mesma não seria cortada!

Vamos lá ver então se percebi: qualquer pessoa, mesmo sem habilitação técnica para tal, pode podar uma espécie protegida, como o sobreiro ou a azinheira, ou mesmo uma árvore classificada de interesse público, desde que se comprometa a deixar pelo menos um "toco"?

Este é o estado da nação...

sábado, Março 22, 2008

Um arco-irís acarreta sempre alguma esperança

Sábado de Páscoa (Covilhã) - Um dia de Inverno com tudo aquilo a que temos direito...incluindo alguma neve!

Começo por fazer uma coisa na qual não me sinto confortável, ou seja, falar do próprio blogue. Apenas para dizer que estou a começar a explorar o Del.icio.us. Tal significa que a prazo (poderão ser algumas semanas ou alguns meses) tenciono "exportar" para essa ferramenta todas as minhas "Ligações".

Qual é o objectivo? Simplificar o aspecto visual da Sombra Verde que começa a ter um pouco de informação "em excesso" para o meu gosto e ordenar melhor as referidas ligações (embora continue a ter dificuldade em "etiquetar" alguns blogues, esperando que os referidos autores não se aborreçam pelas "etiquetas" (tags) que possa associar às respectivas páginas).
Não irá desaparecer nenhuma das minhas actuais ligações e, pelo contrário, com o tempo surgirão outras para sites relacionados com árvores (e que não sejam blogues).

Isto é só para não se alarmarem se um dia destes, as ditas ligações desaparecem da barra lateral direita. De qualquer maneira, será um processo que levará algumas semanas. Obrigado.


E agora, algumas notícias sobre árvores:

- Gente feliz a plantar árvores (na Serra de Monchique).

- O próximo Festival de Árvores será no blogue Árvores Vivas em Nossas Vidas (uma boa oportunidade para darem a conhecer a uma audiência mais alargada os vosso textos e imagens sobre a temática das árvores).

- Uma bela azinheira que a Júlia descobriu e partilhou connosco.

- O mal dos outros não nos deve fazer feliz, mas não é só em Portugal que existem casos de falta de respeito para com as árvores. Confiram alguns exemplos: em Espanha e na Bélgica.

- Notícia que a Maria me enviou: "Campo de trabalho de voluntariado na Serra da Lousã na 2ª semana das férias da Páscoa de 2008." Temática: colaborar na implementação de uma maternidade de árvores onde a Lousitânea (Liga dos Amigos da Serra da Lousã) faz a reprodução de espécies arbóreas e arbustivas autóctones da Serra da Lousã, espécies que outrora ocupavam todo o coberto vegetal deste maciço da cordilheira central, mas que hoje em dia estão circunscritas a poucos redutos em locais de difícil acesso. A maternidade pretende reproduzir estas espécies (azereiro, azevinho, várias espécies de carvalho, castanheiro, folhado, medronheiro, plátano-bastardo, sobreiro, teixo, ulmeiro, entre outras) e devolvê-las ao seu ambiente natural.

- Algumas comemorações do Dia da Árvore: plantação de árvores em Rio Tinto e na Bela Vista (Águeda), onde se plantou um carvalho depois de se ter cortado o existente; o motivo foi o de sempre, ou seja, medo que a árvore caísse!
E na Beira Interior: em Famalicão da Serra, neste Sábado, a Secção de Ambiente e Património do Centro Cultural de Famalicão promove com as crianças do 1º Ciclo, entre outras actividades, uma visita às árvores plantadas no ano passado e nova plantação de árvores (notícia d'O Interior).
Em Lavacolhos (Fundão), a Pinus Verde irá promover no próximo dia 31 de Março várias iniciativas como os alunos do 1º Ciclo, as quais irão culminar com a plantação de uma árvore (notícia do Jornal do Fundão).

Pela Covilhã, o deserto habitual (puxo pela memória e, correndo o risco de ser injusto, não me recordo da última vez que a autarquia se associou às comemorações deste dia; e se estiver a ser injusto agradecia a correcção). Louve-se pelo menos a coerência: total desprezo pela árvore nos 365 dias do ano!

Nota: Apesar de tudo, estou mais optimista do que estava o ano passado em relação a estas iniciativas do Dia da Árvore. Apesar de ser uma época tardia para a plantação de árvores, apesar de estas iniciativas serem promovidas por instituições (câmaras, juntas de freguesia e mesmo escolas) que promovem a mutilação de muitas árvores, como professor tenho que acreditar que fica sempre algo de positivo, nem que seja em apenas uma ou duas crianças que intervêm nestas iniciativas.

Feliz Dia de Páscoa para todos!

"Hotel Alfarrobeira"

Alfarrobeira (Ceratonia siliqua L.) - Almarginho (Salir, Loulé)

De dimensões claramente acima da média, esta alfarrobeira (Ceratonia siliqua L.) é uma das árvores referenciadas pelo Luís Brás (Almargem) no seu trabalho "Vamos Conhecer as Árvores Monumentais do Concelho de Loulé".

Situa-se na povoação do Almarginho, na freguesia de Salir, bem perto da azinheira com quase 16 metros de altura, sobre a qual escrevi na passada quinta-feira.


Alfarrobeira (Ceratonia siliqua L.) - Almarginho (Salir, Loulé)

Esta velha alfarrobeira, mais do que uma simples árvore, assemelha-se a um hotel onde habitam ou pernoitam vários outros seres vivos.
É constituída basicamente por duas ramificações, sendo que a mais grossa das duas seria, por si só, uma alfarrobeira assinalável.

O tronco, incluindo estas duas ramificações, possui um perímetro de 7,70 metros, sendo que a mais grossa das ramificações tem um perímetro aproximado de 5 metros.

No Árvores Monumentais do Algarve e Baixo Alentejo poderão consultar a localização exacta desta árvore e o conjunto das medições obtidas para a mesma.

sexta-feira, Março 21, 2008

Um fim e um novo começo



Podia ter escolhido qualquer outra árvore mas escolhi esta...Porque representa, em simultâneo, uma esperança no futuro e o desaparecimento de outra que, por razões desconhecidas, foi sacrificada à incompreensível vontade humana.

Sobram as hipocrisias nesta dia dito da Árvore (assim mesmo, com A maiúsculo! Como deveria ser todos os dias...). Haja esperança no futuro, nas vidas que agora começam e na capacidade do ser humano aprender.


Ainda acredito na árvore.



As árvores


Eu espero, sim, que essas árvores cresçam. Adormeço com elas todas as noites, embalado pela sua sombra. Lembro-as de memória, sobre a relva verde. Lembro as suas folhas, caindo de noite. Mesmo as que ainda não vi, eu espero que cresçam, que me esperem, que me abriguem nesse dia em que mais precisarei delas, ouvindo o ruído do mar não muito longe. Tenho, a cada minuto, saudades dessas árvores.

Francisco José Viegas


quinta-feira, Março 20, 2008

A azinheira do Almarginho

Azinheira (Quercus rotundifolia Lam.) - Almarginho (sítio do Barreiro) - freguesia de Salir (Loulé)

 
Em vésperas do Dia da Árvore dou a conhecer um daqueles exemplares que nos enamora à primeira...

Refiro-me à magnífica azinheira (Quercus rotundifolia Lam.) situada na povoação de Almarginho (no sítio do Barreiro), próxima de Salir (bem no interior do concelho louletano). Esta é uma das árvores referenciadas pelo Luís Brás (da associação ambientalista Almargem) no projecto que fez a inventariação das árvores monumentais do concelho de Loulé.

Azinheira (Quercus rotundifolia Lam.) - Almarginho (sítio do Barreiro) - freguesia de Salir (Loulé)

Esta azinheira do Almarginho é, sem sombra de dúvida, um dos melhores exemplares conhecidos desta espécie no Algarve, juntamente com a azinheira de S. Brás de Alportel (exemplar classificado) e a azinheira de Benafim (que se situa igualmente no concelho de Loulé e que foi também referenciada no dito estudo da Almargem).
Azinheira (Quercus rotundifolia Lam.) - Almarginho (sítio do Barreiro) - freguesia de Salir (Loulé)

Nos próximos dias serão publicados no Árvores Monumentais do Algarve e Baixo Alentejo os dados relativos a esta azinheira, bem como uma localização mais precisa da mesma.

P.S. - Peço desculpa pela qualidade das fotografias mas, à hora a que as mesmas foram tiradas, a luz era já insuficiente para obter uma melhor qualidade.

Em vésperas do Dia da Árvore não faltam as boas intenções...

- Segundo a edição desta semana do Notícias da Covilhã, a junta de freguesia do Teixoso (Covilhã) irá proceder amanhã, com a ajuda de várias crianças, à plantação de vários teixos na vila e em anexas da freguesia.

- A câmara de Faro está a promover a plantação de 170 árvores em escolas do concelho (as quais esperemos que não venham a ter um final anunciado).

- Notícia via Ondas 3: bom exemplo de uma câmara municipal (a de Aljezur), apostada no combate contra as invasoras em nome da preservação da biodiversidade local.

- Marcha contra o abate de 200 pinheiros com mais de dois séculos de existência, na Mata do Medos (Charneca da Caparica, Almada).
Ainda por Almada, a autarquia local procedeu na ecoteca local à oferta de árvores e arbustos, nos passados dias 17, 18 e 19 de Março. (Boas intenções, sem dúvida, mas o que é que a câmara de Almada tem a dizer acerca do previsível abate daqueles 200 pinheiros?)

- A Quercus pretender recolher cerca de 30% das rolhas comercializadas em Portugal e utilizar os fundos provenientes da respectiva reciclagem na plantação de árvores.

- Curiosidade n.º 1: "Por uma comparação errada com as práticas agrícolas é frequente pensar-se que as árvores precisam de ser podadas, de preferência com cortes drásticos e profundos, à semelhança das árvores de fruto. Esta convicção leva os proprietários e o público em geral a "exigir" sacrifícios das copas das árvores, que pelo contrário devem ser evitados, pois tecnicamente não são recomendados." De onde retirei este texto? Acreditem ou não, ele está disponível na página de uma câmara municipal deste país, a de Cascais.
Esta é a "teoria". Não conheço Cascais, mas adoraria comprovar no terreno se a "prática" camarária respeita esta "teoria" tão respeitadora da árvore no espaço urbano.


- Curiosidade n.º 2: no Brasil, no município de Londrina, a Secretaria Municipal do Ambiente pretende multar os comerciantes que não plantarem árvores em frente aos respectivos estabelecimentos comerciais. Em Portugal poderia ser dado um milhão de euros ao primeiro comerciante que não manifestasse o desejo de ver podadas as árvores existentes diante da sua loja! Creio que o dinheiro ficaria por entregar....

quarta-feira, Março 19, 2008

Seja um amigo das ruas com árvores



O Cesar Cardia dos Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho teve a gentileza de me enviar este cartaz que publicita a classificação desta rua de Porto Alegre como Património Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental desta cidade brasileira.

Considero que este grupo de moradores e a respectiva luta para salvar as árvores da sua rua, deveriam ser um estímulo e uma bandeira para todos os que, deste lado do Atlântico, lutamos contra a incompetência das câmaras municipais e juntas de freguesia, na gestão do património arbóreo dos municípios portugueses.

Deste modo, e inspirados por este exemplo, apelo a que escrevam cartas para as câmaras e para as juntas de freguesia, para os jornais e outros órgãos de comunicação social, para que enviem textos e fotografias para blogues mas, acima de tudo, para que não se calem e não se conformem.

Tal é o caso de muitos cidadãos de Unhais-da-Serra (Covilhã) que, perante este crime, continuam a deixar os seus comentários neste texto de Outubro passado.
Num país que nutre tanto desprezo e ódio pelas árvores, esta revolta do povo de Unhais é também ela uma inspiração para continuarmos a denunciar estas infâmias. Apetece-me emendar o título do meu texto de Julho passado, Uma vila de interesse público, para Uma vila e um povo de interesse público, tão raro é ver no nosso país uma gente que defenda as suas árvores.


Denunciemos o que há para denunciar e, sobretudo, salvemos o que ainda há para ser salvo!

Eu sou amigo das ruas com árvores! Seja mais um.

domingo, Março 16, 2008

Um Domingo de grandes árvores

Oliveira (Olea europaea L.) - Almarginho (Salir, Loulé) - P.A.P. = 4,80 metros

Foi um Domingo inesquecível, um Domingo que permitiu a descoberta de grandes árvores.

Partindo do trabalho de referenciação das árvores monumentais do concelho de Loulé elaborado pelo Luís Brás da Almargem, partimos à descoberta de alguns dos melhores exemplares do barrocal algarvio.

Foi um dia de glória para os "caçadores de árvores" Pedro Santos e Miguel Rodrigues! Como poderei explicar a experiência de hoje sem parecer absolutamente eufórico? Como poderei escrever estas linhas sem parecer uma criança a quem o Pai Natal concedeu todos os desejos da sua lista de prendas?

Aguardem por notícias nos próximo dias aqui na Sombra e no Árvores Monumentais...Uma das maiores azinheiras do Algarve, uma alfarrobeira colossal e (provavelmente) a mais grossa oliveira do Algarve!

As árvores retratadas nas imagens que acompanham este texto são apenas um aperitivo...
Uma oliveira com quase 5 metros de perímetro de tronco ou uma alfarrobeira com perto de 6 metros, são árvores dignas de registo. Mas à sombra dos gigantes hoje visitados, perderam parte significativa do impacto que teriam tido noutras circunstâncias.


Num país de mentalidades liliputianas que temem a grandeza da árvore, ainda há gigantes por descobrir...Ainda há árvores!

Alfarrobeira (Ceratonia siliqua L.) - Almarginho (Salir, Loulé) - P.A.P = 5,70 metros

P.S. - Algumas notícias sobre árvores:

- Árvores plantadas por crianças (em Manteigas e em Queluz);

- Grupo Aenor distribui 10 000 árvores entre os seus clientes;

- Os responsáveis pelo site http://www.eco-find.com/ (Google zero) iniciaram uma campanha de plantação de árvores de forma a incentivar a responsabilidade ambiental em Portugal (na razão de 1 árvore por cada 1000 visitas efectuadas ao referido site);

- No próximo dia 24 de Março, na sede da Liga para a Protecção da Natureza em Lisboa, irá ocorrer o lançamento do livro "A Árvore Generosa" do escritor norte-americano Shel Silverstein (edição portuguesa da Bruaá Editora).

sexta-feira, Março 14, 2008

Uma rua tornada obsessão

Imagem do blogue Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho


Obrigado Neusa pela descoberta deste texto e pela viagem que nos proporciona ao reino das sombras verdes. Apertem o cinto...


"E tem dessas ruas, verdadeiros túneis verdes onde a luz do final da tarde se infiltra por entre as folhas e enche o interior do túnel de um amarelo espesso, carregado de inúmeras partículas de composição desconhecida que dão ao ar o aspecto de uma poeira vegetal descendo sem peso dos galhos das árvores.

De repente você vira numa esquina e se vê na extremidade de um desses túneis. Olhá-lo desse ponto é como ver materializada a imagem da paz. As árvores que crescem nas duas calçadas unem suas copas mais ou menos à altura do terceiro andar dos edifícios - também eles alinhados, mas no exterior do túnel -, criando esse espaço particular protegido da luz direta do sol.

Caminhar no interior de um desses túneis é como entrar num cenário de sonho. Alguma coisa ali escapa do real. As cores não são as mesmas com as quais nos deparamos todos os dias. O amarelo - eu insisto, talvez numa tentativa de melhor apreendê-lo - é denso, quase palpável, uma grande massa gasosa que se forma quando a luz incisiva, cristalina, quase branca do sol passa com esforço através da camada verde de folhas e galhos e cipós que pendem preguiçosamente em alguns pontos.

Mesmo se por acaso faz frio, a sensação que essa luz amarelada transmite é de calor, de algo que envelopa por inteiro cada centímetro quadrado de qualquer corpo, vivo ou não, que se encontre mergulhado em seu interior.

Não tenho dúvida de que as percepções igualmente oníricas do espaço e do tempo no interior do túnel decorrem dessa massa de luz amarelada, o elemento principal do túnel, a sua substância. Quanto mais inclinado estiver o sol lá fora, quanto mais a tarde avança, mais denso será o amarelo, tendendo um pouco para o laranja antes de se evaporar nos dois ou três minutos que precedem o abraço repentino da noite.

Mover-se nesse espaço significa encontrar o ritmo exato da respiração do túnel. Estamos ali como que imersos em algo que não é nem líquido nem gás mas um estado intermediário, um estado que exige lentidão de movimentos e certo recolhimento parecido ao que experimentamos percorrendo a nave de uma imponente catedral. A abóboda de galhos e folhas alonga o espaço para o alto sem interrompê-lo de forma brusca, criando uma espécie de teto difuso, descontínuo porque feito pela superposição de folhas e ramos, mas compacto o suficiente para, primeiro, filtrar a luz que vem do exterior e, segundo, para aprisionar o resíduo dessa filtragem, essa espécie de luz-gás que infla o túnel como um balão comprido ou um imenso pulmão ressoando ruídos urbanos.

Tais ruídos também são particulares ali dentro, chegam também eles filtrados, transformados, isolados, e o resultado é como se ouvíssemos de longe, mas muito longe, os sons da cidade se movimentando logo ali fora, no exterior do túnel.

(O canto dos pássaros, se a hora for essa do fim da tarde ou de manhãzinha, mereceria um extenso parágrafo à parte. Estando em uma posição especial, nem no interior nem no exterior, mas na própria "parede" do túnel, os pássaros vão emitir seu canto que será ouvido diferentemente conforme a posição do ouvinte. Para quem está fora do túnel, o canto chega misturado aos sons agudos, francos e múltiplos que a cidade manifesta a cada batimento do seu coração; enquanto que no interior do túnel este mesmo canto reverbera gravemente, destacado de todo e qualquer outro som, fazendo vibrar as folhas das árvores que, por sua vez, emitem um rumor que é mais visto do que ouvido, no reflexo tremido da luz contra as folhas).

Falamos de uma cápsula, se quiserem, mas não uma cápsula estanque. Ao contrário, tudo ali é permeabilidade, tudo está em diálogo contínuo com o que existe à volta. A cidade, assim como a luz, entra no túnel através dos seus poros, a cidade entra na rua, recolhe-se nesse espaço íntimo, quase sagrado. E a percepção que se tem dela ali dentro é, e não poderia ser diferente, mística. Ali tocamos a sua essência, todo o resto ficou lá fora.

Inclusive o tempo.

Porque parece ser impossível contar o tempo no interior do túnel. Impossível se aperceber da sua passagem, mesmo sendo evidente que ele não está paralisado. Apenas, talvez, seu andamento não seja uniforme, isto é, alguns minutos são mais longos do que outros, uns têm mais do que sessenta segundos outros menos, o que resulta numa marcha temporal que se constrói por saltos: frações de tempo quantitativamente iguais se sucedem gerando períodos que são sentidos como muito longos, intercalados por outros muito curtos, fugazes instantes capazes de abarcar toda uma jornada.

Pois de repente você vira numa esquina e se vê na extremidade de uma dessas ruas. Ao fundo, ela se espicha, espremida pela fila de árvores que crescem nas calçadas. Do alto pendem os galhos plenos de verde e as cordas de cipó cobertas de folhas.

Os cipós e a abundância verde deixam claro que estamos perto do trópico. E o amarelo, esse, creio estar relacionado a certa "meridionalidade" na proporção exata para produzir efeitos de ótica rara a partir da mera incidência do sol na copa das árvores.

Onde o sul e o trópico flertam. Porto Alegre está justamente aí. Cheia desses túneis verdes, cheia dessas ruas mágicas cobertas por uma abóboda de folhas e ramos de árvores. Podemos encontrá-las facilmente no Bom Fim, na Floresta, mas também no Moinhos de Vento e até em meio à platitude de São Geraldo.

Basta deixar-se levar. Você vai por uma avenida central, barulhenta, movimentada, e de repente, numa esquina, você olha para o lado e lá está. Então não resta mais nada a fazer senão se enfiar por um desses túneis. Sem saber onde nem quando você vai sair".

Amilcar Bettega Barbosa
(escritor, autor de "Os Lados do Círculo", livro vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005).

Texto publicado anteriormente no blogue Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho.

P.S. - Bom fim-de-semana.

terça-feira, Março 11, 2008

Ainda pelo Reino dos liliputianos e dos sobreiros gigantes



Na Corte Grande (Monchique) não existe apenas um sobreiro de dimensões majestosas, mas todo um conjunto de exemplares dignos de registo (como os dois que mostro nestas fotografias).
Trata-se de prestar vassalagem não apenas a Sua Majestade mas a toda a sua corte.



Tenho vários assuntos que gostaria de abordar nos próximos tempos mas, com o bulício do final de período escolar, o ritmo de publicação de textos irá diminuir na próxima semana.


P. S. - Termino com as ligações para algumas notícias sobre árvores:

- Mais um motivo para adicionar à infindável lista de justificações para podar as árvores: facilitar a vídeo-vigilância.

- Agora que se aproxima o Dia da Árvore, as autarquias portuguesas esforçam-se por sublinhar o seu amor ao verde, através da plantação de árvores que daqui a uns anos irão mandar podar de forma selvagem!
Plantação de árvores em: Oliveira de Azeméis, Sintra, Castanheira do Vouga e Faro (recorde-se a forma como a autarquia de Faro demonstrou há tempos o seu respeito pelas árvores).

- Por último, duas notícias via blogue A Morteira: curso sobre as árvores monumentais da Galiza; colecção de selos dos correios espanhóis dedicada às árvores monumentais do país.

segunda-feira, Março 10, 2008

Retratos do Portugal que odeia as árvores (VIII)

Mais um ataque de "podite aguda", desta vez no Cacém e em Agualva (fotografias de Albano Matos).

A poucos dias da comemoração do Dia da Árvore, as autarquias portuguesas continuam a demonstrar que o seu amor às árvores tem uma validade confinada às 24 horas do dia 21 de Março.










domingo, Março 09, 2008

Aos pés de Sua Majestade

Foi no Domingo passado, Domingo de uma Primavera adiantada, que os meus olhos o mediram pela primeira vez.


Sim, é verdade! Tal como me relatou o Miguel quando a visitou em Novembro passado, esta árvore encolhe as pessoas que se submergem na sua sombra.



Sobreiro (Quercus suber L.) - Corte Grande, Monchique



Bem-vindos ao reino de Sua Majestade, a sobreira da Corte Grande (em Monchique). Num país que nutre tanto ódio à árvore, este sobreiro é, em si mesmo, um acto de heroísmo.


Há algo de liliputiano nesta terra de sobreiros gigantes. E refiro-me não apenas à insignificância do nosso tamanho perante a dimensão desta(s) árvore(s).

Refiro-me sobretudo à reflexão que esta árvore provoca em nós; uma reflexão sobre a mesquinhez e pequenez com que as árvores são tratadas em Portugal. Falta-nos dimensão, em particular a humana.


Sobreiro (Quercus suber L.) - Corte Grande, Monchique

Podem consultar no Árvores Monumentais do Algarve e Baixo Alentejo as medições que obtivemos para este sobreiro e que, com excepção do perímetro do tronco, confirmam os valores obtidos pelo Miguel aquando da primeira visita à Corte Grande.

sábado, Março 08, 2008

A "bolota" que não gosta de árvores


Em Albufeira o avanço do cimento e do betão assemelha-se a uma doença maligna que avança inexoravelmente em todas as direcções.

De algumas semanas a esta parte começou a nascer mais uma urbanização: a Quinta da Bolota. Assim mesmo, talvez para passar uma ideia de amor para com o "verde" e as árvores. As imagens falam por si!


Com amigos destes, quem necessita de inimigos?



O mais assustador é o próximo que esta urbanização está de uma propriedade (fotografia sob este parágrafo) que possui um conjunto de oliveiras monumentais (ver aqui, aqui ou aqui).

Dito por outras palavras, é fácil imaginar que o futuro irá reservar para estas oliveiras um destino semelhante ao das oliveiras da citada Quinta da Bolota.

O "melhor" que estas oliveiras monumentais, que ainda subsistem no Algarve, podem esperar do futuro será acabar no jardim de alguém abastado ou nos jardins de algum hotel ou campo de golfe.

Festival das Árvores #21

Algumas notícias sobre árvores:

- Cascais vai plantar 10 000 árvores no Parque Natural. Dizem eles: "... para compensar o "massacre" da urbanização e reforçar a relação entre munícipes e natureza!!!"

- Um artigo sobre a importância das árvores nas cidades e os motivos absurdos para o seu derrube - na BBC News.
Gostei, particularmente, desta parte: "Each year, about three people in the UK are killed by falling trees in public places, which works out as roughly a risk of one in 20 million (...)Contrast this with the risk of one-in-16 800 for an average Briton being killed in a car accident in any one year. "
Resumindo e em português: no Reino Unido a probabilidade de morrer devido à queda de uma árvore é de 1 em 20 milhões e a probabilidade de morrer num acidente de carro é de 1 em 16 800; o que, em termos matemáticos, é uma probabilidade bastante superior.
Dá que pensar, sobretudo quando, em Portugal, nos continuam a querer convencer que as podas radicais são feitas em nome da nossa segurança.

sexta-feira, Março 07, 2008

Adeus. (A um sobreiro)



(...) entrego-me ao húmus para crescer da erva que amo,
Se me queres ter de novo, procura-me debaixo da sola das tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
todavia dar-te-ei saúde,
E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor.

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Algures estarei à tua espera.


Walt Whitman (traduzido por José Agostinho Baptista)

quinta-feira, Março 06, 2008

Retratos do Portugal que odeia as árvores (VII)

Caria (Belmonte) - Fotografias gentilmente cedidas por Cova Juliana.

Adoro o pormenor dos "corninhos" deixados nos cotos, revelador de grande classe e saber de ofício do "mestre podador".









P.S. - Mais denúncias de "podite aguda":

- Do António no Dispersamente....

- Da Júlia no Gambozino (grande texto...mesmo em cheio!)

quarta-feira, Março 05, 2008

Retratos do Portugal que odeia as árvores (VI)

Sortelha (Sabugal) - Fotografia de Rui Peixeiro


Algumas notícias soltas sobre árvores:


- Castro Verde: distribuição de árvores porta a porta para alargar mancha verde.
A Câmara Municipal de Castro Verde vai distribuir de forma gratuita um conjunto de árvores pelos cidadãos do concelho. Que espécies vão ser distribuídas? Em que locais deverão ser plantadas? Em que altura do ano?
Receio que muitas acabem secas por terem sido tardiamente plantadas; ou podadas de forma radical daqui a uns anos, por terem sido plantadas em locais inapropriados.
Nós e a nossa eterna tendência para confundir "boas intenções " com "falta de planeamento".

- Exposição: "O Jardim - a respiração da cidade". Inauguração no dia 7 de Maio de 2008, entre as 18h00 e as 23h00, na Sala do Veado do Museu de Ciência e História Natural, Lisboa e estará patente ao público até ao dia 31 de Maio (Terça-Sexta 10h-17h, Sab-Dom 11h-18h).


- A Prefeitura de São Paulo irá utilizar imagens de satélite para verificar quem derrubou ou podou árvores sem autorização, como forma de disciplinar a expansão imobiliária da cidade e fiscalizar o derrube ilegal de árvores. A isto em Portugal chama-se "ficção científica"!


Figueira da Foz - Fotografia O Ambiente na Figueira da Foz

- O João Vaz, lutador incansável contra as podas radicais na sua cidade (Figueira da Foz), foi ontem convidado a identificar-se pela PSP enquanto protestava de forma ordeira contra este tipo de práticas.

Temos pois as autoridades a dar (ainda que de forma involuntária) cobertura a quem destrói o património público, a mando de quem (câmaras municipais) o deveria proteger.

É por estas e por outras, que por vezes é difícil compreender o conceito de "autoridade" e que acções como a de Prefeitura de São Paulo são pura "ficção científica" neste país que nutre um profundo ódio às árvores.


Figueira da Foz - Fotografia O Ambiente na Figueira da Foz

terça-feira, Março 04, 2008

A rua mais bonita do mundo

Imagem do blogue Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho - RESISTIR É PRECISO!


Confesso que quase me vieram as lágrimas aos olhos quando ontem descobri esta rua...


Imagem do blogue Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho - RESISTIR É PRECISO!

Trata-se da Rua Gonçalo de Carvalho situada na cidade de Porto Alegre (Brasil), a qual foi decretada como Património Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental de Porto Alegre, a 5 de Junho de 2006.

Conheçam a luta dos seus moradores para preservar esta maravilha consultando o blogue Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho - RESISTIR É PRECISO!

Um exemplo de resistência e de cidadania para todos nós. A vossa luta é a luta da Sombra Verde!


Árvores no espaço público

"Normalmente, associa-se a Árvore da Sabedoria, cujos frutos vencem o olvido e a ignorância, à aprendizagem e à medição do tempo natural e efémero da vida; analogia que não esconde o desempenho das árvores na fecundidade e no equilíbrio dos ecossistemas. É, aliás, comum considerar as árvores na inferição do génio dos lugares, pois elas bebem do passado. Dada a sua longevidade, conhecem várias gerações e inscrevem nos seus anéis a memória dos tempos idos, pelo que nalgumas culturas são consideradas sagradas. Contudo, apesar de garantirem a vida na Terra, não estão livres do maior perigo: a estupidez humana.
Sob o pretexto da "poda" (limpeza e manutenção), as árvores de grande porte da região têm vindo a ser objectivamente degoladas: a sublime alameda de plátanos de Unhais da Serra foi derrubada; a tília centenária do Rodrigo jamais recuperará o aspecto frondoso que lhe conhecemos; os plátanos da estrada Tortosendo-Covilhã-Canhoso deixaram definitivamente de ofuscar as vivendas de tipo socrático. Mais inquietante que a extensa lista de exemplos, é a falta de escrúpulo com que se continua a dispor do património arbóreo colectivo, mutilando barbaramente o que demora décadas ou séculos a crescer. Os cotos que sobram da monda representam o que de mais vil há no homem.
Dando-nos sombra, lenha e fruto, mesmo em meio urbano, as árvores não se ficam pela função decorativa. A arborização coadjuva as mais racionais directrizes urbanísticas e arquitectónicas e, mesmo quando as não há, logra qualificar os sítios, aumentar a higroscopicidade e a estabilidade dos solos, absorver o ruído automóvel, purificar o ar, conter o vento, etc. Donde, não podermos continuar a resumir os "espaços verdes" aos canteiros residuais dos loteamentos, relvados das rotundas e floreiras dependuradas nos separadores das vias. Há que evoluir dos "jardins zen" (empedrados) para corredores verdes que assegurem a continuidade do coberto vegetal e convidem as pessoas a andar a pé até às áreas naturais envolventes. A integração das árvores no espaço público é, pois, necessária para o conforto e a qualidade de vida, como contraponto da paisagem artificial, aliando as culturas urbana e rural. Na cidade, como no campo, há árvores que fazem lugares. Não entender isto, é não entender nada.
Nalguns países, as estradas adequam-se às árvores preexistentes e, em caso de necessidade, transladam-se ou convocam-se referendos para apurar a vontade popular acerca do destino a dar a espécimes centenários. No pós-guerra, até os alemães plantaram árvores da mesma espécie nos espaços reconstruídos, essencialmente por razões afectivas e humanistas. Em França, o património arbóreo é considerado a par do arquitectónico. Se na Beira algumas árvores notáveis ainda enchem de orgulho as populações, porque não se inquietam as pessoas quando as vêem arder ou tombar em nome do "progresso"? Por que motivo os planos municipais de ordenamento do território, que supostamente servem para cuidar do bem comum, ignoram a paisagem?
Quando o desrespeito pelo ambiente e a violência de medidas administrativas gratuitas excede o habitual, dividimo-nos entre a tristeza e a repulsa. Infelizmente, na sociedade portuguesa vulgariza-se a tolerância para com estas atitudes insensatas e despóticas, seja pelo temor de represálias ou por simples indolência; "apagada e vil tristeza" que tolhe o avanço para um qualquer futuro não hipotecado. Ainda assim, as árvores, na sua beleza vertical, merecem o melhor da nossa sensibilidade e inteligência.

Nota: Para perceber a motivação do que acabo de expor, v. http://sombra-verde.blogspot.com, http://ocantarozangado.blogspot.com e http://dias-com-arvores.blogspot.com"

Artigo publicado pelo arquitecto Francisco Paiva na última edição d' O Interior.

segunda-feira, Março 03, 2008

A suprema arrogância






A imagem que antecede este texto é a digitalização de uma notícia do Jornal do Fundão do passado dia 21 de Fevereiro.


Nesta notícia é referido que o deputado municipal Hélio Fazendeiro questionou a autarquia da Covilhã, acerca do abate de uma tília monumental no Bairro do Rodrigo. A essa interpelação, e como é habitual, a maioria limitou-se a responder com o silêncio arrogante de quem se considera estar numa posição em que não tem de prestar justificações a ninguém.


Nem sequer tentaram justificar o que é injustificável. Basta-lhes o silêncio...E porquê?


Porque a maioria que governa esta cidade sabe que conta com uma poderosa aliada: a ignorância! Eles sabem que a maioria das pessoas "embirra" com as árvores e que mesmo os cidadãos mais tolerantes com o verde consideram estas práticas normais; aliás, consideram-nas mesmo imprescindíveis e benéficas para a vitalidade e saúde das árvores.


As câmaras sabem que ao praticarem estas podas estão a transmitir uma (falsa) sensação de segurança às pessoas. Ainda na passada sexta-feira, chamava a atenção para uma notícia onde uma vereadora do Bombarral afirmava ter identificado (com que competência técnica em arboricultura?) várias "árvores perigosas" no concelho.


As autarquias gastam o dinheiro dos contribuintes para destruir as árvores com a justificação que estão a aumentar a vitalidade das mesmas e a proteger a segurança das pessoas e dos seus bens, quando na realidade estão a produzir cotos fragilizados muito mais propensos a causar acidentes. Elas sabem que com este tipo de acções ganham simpatia e votos numa larga faixa do eleitorado. Se forem a este bairro e questionarem os seus habitantes, verão que a maioria concordou com esta acção pois as árvores altas são um perigo a abater!Irónico, não é?

Acresce que a Câmara da Covilhã, como a grande maioria das restantes câmaras municipais, não pode justificar um acto destes porque não tem técnicos credenciados em arboricultura que pudessem dar credibilidade técnica/científica a estas podas. Por isso, limitam-se ao silêncio.

E esta é a mesma câmara municipal que vai inaugurar, daqui a umas semanas, o Parque da Goldra e proclamar o seu amor às árvores e ao ambiente e o quanto tem investido nos espaços verdes da cidade e do concelho. Até para a hipocrisia deveria existir um limite!

Retratos do Portugal que odeia as árvores (V)

Braga, Portugal. (Fotografias de Ana Jorge)